De frente com a miséria

A experiência humanitária de 11 estudantes brasileiros e australianos numa das cidades mais populosas e desiguais do mundo, Dacca, a capital de Bangladesh
Divulgação / ADRA Bangladesh
Texto: Adriane Santana e Marcelo Heidemann
 
Onze voluntários e uma missão. Destino: Dacca, cidade com 7 milhões de habitantes e capital de um dos países mais pobres do mundo, Bangladesh. Desafio: dedicar 12 dias para servir a população local e apoiar alguns projetos da ADRA, ONG adventista que atua em 125 países. Para tanto, os estudantes brasileiros e australianos enfrentaram calor, umidade, trânsito caótico mas, acima de tudo, o choque de ver tanta pobreza concentrada no mesmo lugar. Essa aventura solidária você confere a seguir. 
 

Pobreza e intolerância

Bangladesh fica ao sul da Ásia e é caracterizado pela grande densidade demográfica. Metade dos seus 150 milhões de habitantes vive com menos de um dólar por dia, o que coloca o país em 146º lugar no ranking do índice de desenvolvimento humano (IDH). 
 
O que mais chocou o grupo de professores e estudantes de Enfermagem e Teologia da Avondalle University, da Austrália, foi se deparar com o trabalho quase escravo das crianças. Lá, com o apoio dos pais, os menores trabalham pesado o dia inteiro em fábricas de todo tipo. Afinal, a família deles precisa comer. 
 
O ponto é que essa situação lamentável evidencia a desigualdade social do mundo. Muitas roupas de marcas internacionalmente conhecidas são fabricadas em Bangladesh às custas dessa exploração. Para piorar, o país bengali sofre anualmente com enchentes e ciclones, tragédias que ceifam vidas e destroem casas e plantações. 
Da perspectiva missionária, Bangladesh apresenta outro desafio. Quase 90% das pessoas são muçulmanas. As orações em árabe são transmitidas cinco vezes ao dia por meio de autofalantes. Com certa frequência, há manifestações de uma minoria islâmica que exige que as ONGs cristãs deixem o país. Lá, os seguidores de Cristo representam apenas 1% da população e sofrem com a intolerância religiosa. 
 

Brasileiros engajados

O pastor Landerson Santana, brasileiro, é o diretor da ADRA Bangladesh. Ele chegou ali em fevereiro, acompanhado da esposa e dos dois filhos. A equipe de voluntários também foi liderada por uma brasileira, Letícia Fialho, estudante de Enfermagem na Austrália. Ela é esposa de outro brasileiro, Odailson, aluno de Teologia na Avondalle. 
 
Landerson e Odailson se conheceram numa expedição solidária, em 2011, na Amazônia. Na época, Odailson liderava uma equipe de 16 voluntários da Austrália e Landerson era o diretor da ADRA Brasil para a região. Em 2013, pela terceira vez, Odailson acompanhou um grupo do projeto One Mission, uma iniciativa da universidade australiana que visa a levar assistência a países subdesenvolvidos. 
 
Para Letícia, liderar os voluntários em Bangladesh foi uma decisão difícil. Faltando um mês para a viagem, ela descobriu que estava grávida. Mesmo pressionada pelos amigos e familiares que a alertaram sobre os riscos de saúde que ela correria com o clima quente e o saneamento precário de Dacca, Letícia não desistiu porque sabia que sem sua presença a missão seria cancelada. 
 
O grupo chegou à Bangladesh no dia 27 de junho e, primeiro, conheceram um pouco da capital e a sede administrativa da Igreja Adventista. Encarar o trânsito caótico com milhares de rickshaws (riquexós) – os triciclos pedalados por um homem e que podem carregar até três pessoas – fez parte da aventura. Em Dacca, os carros e micro-ônibus, em sua maioria muito velhos, não respeitam sinalizações e pedestres. 
 

Projetos da ADRA

Os voluntários atuaram em dois dos 12 projetos desenvolvidos pela ADRA Bangladesh: no Chalantika Mother and Child Health Project que atende a 120 crianças com apoio pedagógico, atendimento médico, duas refeições diárias e cursos profissionalizantes e de alfabetização; e no Mirpur Children Center que também beneficia 120 crianças, com a vantagem de oferecer curso de informática e creche para 30 menores.
 
Por quatro dias, os voluntários ajudaram as professoras contando histórias, ensinando músicas e visitando algumas crianças que moram nas favelas próximas ao projeto. Bairros inteiros construídos na beira de riachos contaminados, sobre plataformas de bambu e cobertos com telhas de zinco. 
 
Os voluntários ficaram mais chocados ainda quando visitaram algumas fábricas metalúrgicas no centro de Dacca. Eles viram crianças trabalhando em condições precárias. Em locais insalubres, os menores passam o dia inteiro em troca de baixos salários. Os acidentes de trabalho são comuns e com eles a mutilação de dedos e membros do corpo. 
 

Saúde, educação e agricultura

Na sexta-feira, dia 5 de julho, uma feira de saúde foi organizada numa escola adventista. Foi a oportunidade de os estudantes de Enfermagem orientarem a população sobre higiene e saúde, além de realizarem atendimentos básicos. Dois voluntários passaram o dia cortando o cabelo das crianças.
 
No sábado, dia 6, o grupo visitou o internato adventista para conhecer alguns dos jovens que são mantidos com auxílio que vem do exterior. Os voluntários entregaram os 15 mil dólares que conseguiram arrecadar na Austrália para ajudar outros bengalis a estudar. Nativos como Prince, um jovem de família muçulmana que estudou nesse colégio, tornou-se adventista e hoje trabalha como designer gráfico no escritório da denominação. 
 
Os missionários também conheceram um projeto de geração de renda e redução da vulnerabilidade nas inundações. Esse projeto é desenvolvido pela ADRA na zona rural de Manikgonj. A ONG oferece orientação técnica em plantio e recursos para elevar o terreno onde a casa dos agriculltores foram construídas. Poços que dão acesso a água limpa e banheiros também são construídos pela ADRA. Além disso, as famílias recebem aulas de alfabetização, inglês, economia e costura.
 

Mudar o mundo

Depois de 12 dias de aventura solidária, os estudantes voltaram para a Austrália com a grata lembrança do sorriso tímido e sincero de gratidão dos bengalis e com a certeza de que ao tentarem mudar o mundo, o mundo interior deles é que foi transformado. 
 

Para saber +

 
Autor: admin - Publicado em: 03/10/2013 - Fonte: