Lições de uma tragédia

Brasileiro conta como a solidariedade está ajudando a reconstruir as Filipinas. Ele lidera as ações da agência humanitária adventista no país
HKRD/Flickr e © ijacky/fotolia
Quase seis meses após a passagem do tufão Haiyan, os filipinos tentam retomar a vida. O ciclone, que alcançou a velocidade de 315 quilômetros por hora, devastou a cidade de Tacoblan, destruiu ilhas e deixou um saldo de destruição: foram mais de 6 mil mortos e milhões de pessoas desabrigadas.
 
Pouco tempo antes da tragédia, o brasileiro Denison Grellmann havia aceitado um convite para ser o diretor da Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais (ADRA) nas Filipinas. Pouco tempo depois, ele se viu no meio de uma das maiores catástrofes que o país asiático já enfrentou.
 
“Vários funcionários da ADRA ao redor do mundo foram enviados às Filipinas. Precisávamos dar um apoio à equipe local, que já atuava no país. Depois, veio uma segunda equipe, que esteve lá e prestou auxílio às vítimas até meados de abril”, destaca o paulista, que já auxiliou a entidade em países como Madagascar, Zimbábue, Moçambique e Laos.
 
Para Grellmann, que antes da mudança para as Filipinas atuou como gerente de programas de desenvolvimento na sede da ONG, em Washington, DC, servir o próximo é um verdadeiro privilégio. "Ver como uma pequena ajuda pode salvar alguém ou amenizar o sofrimento é algo incrível", diz.
 
Mais do que prestar um auxílio imediato, poder acompanhar a transformação de uma pessoa por meio de programas de longa duração é um processo gratificante. "Muitas vezes, o apoio começa com uma ajuda imediata, que é suprir aquela necessidade básica, mas com o passar do tempo você acompanha a transformação. Você vê várias deficiências e dificuldades dando lugar à esperança e à autoestima. É um privilégio", comenta.
 

Trabalho conjunto 

A atuação da ONG, que está presente em 125 países, envolve as diferentes fases de uma emergência: estado de alerta, resposta imediata, recuperação, atenuação e desenvolvimento de longo prazo.
 
E para qualquer tipo de desastre, cada escritório da rede já sabe que tipo de intervenção poderá ser feita. Isso tudo é possível graças a um plano de previsão de riscos, além de parcerias estabelecidas com governos e outras entidades. 
 
"A ADRA não trabalha sozinha. Nas Filipinas, por exemplo, participamos de encontros nos quais estratégias são tomadas em conjunto com o governo e outras instituições assistenciais. Em outras palavras: dizemos o que podemos fazer e como podemos ajudar. Então, cada ONG faz sua parte", explica.
 

Lições de uma tragédia

Ao pisar em solo filipino, o funcionário da ADRA Internacional lembrou uma máxima, a qual carrega consigo: a vida é muito frágil. "As coisas não valem nada. Qualquer tempestade e inundação leva tudo. O que conta é o relacionamento humano", diz.
 
O relacionamento tem feito a diferença na vida e no cotidiano da população local, que perdeu tudo, menos a solidariedade. "Mesmo as pessoas pobres estavam ajudando umas às outras. Muitas pessoas não tinham para onde ir e eram acolhidas por outras famílias", descreve.
 
Em ocasiões como esta, a resiliência – que é a capacidade ou habilidade de enfrentar uma situação adversa – é fundamental no processo de retomada da rotina e da vida. E para um país que tem que lidar com aproximadamente 20 desastres por ano, recomeçar e ter esperança são expressões que já fazem parte do vocabulário da população e dificilmente cairão em desuso.
 
"Em um desastre, você pode ficar desesperado ou começar a agir. No caso do furacão Katrina, por exemplo, as fotos e vídeos que circularam pela internet mostraram o desespero das pessoas. Elas ficaram perplexas e esperavam a ajuda de alguém. Isso não se via nas Filipinas. O que se via era um povo atuando e ajudando", analisa.
 
Outra lição que marcou a estada inicial do brasileiro nas Filipinas foi ver a disposição e a confiança das crianças, que, mesmo tendo perdido praticamente tudo, brincavam nos entulhos que sobraram após a passagem do tufão. “Elas estavam improvisando seus brinquedos. Estavam, de alguma forma, tentando ter um pouco de esperança e felicidade em um momento tão complicado como aquele”, cita.
 

Recomeço 

Aos poucos, o cenário de destruição dá lugar à retomada da rotina e da vida. "A fase atual é a de recuperação de curto prazo. As pessoas já não querem mais ficar em lonas ou abrigos temporários. Em dezembro, teve início a época de plantação de arroz, que é um item muito essencial na dieta do filipino. Agora eles precisam limpar as áreas afetadas e plantar o cereal", adverte.
 
A medida em que a população restabelece sua rotina, Grellmann pensa nos desafios que terá pela frente. Há poucas semanas, o brasileiro desembarcou nas Filipinas, mas não para uma visita rápida. Dessa vez, sua estada deverá durar entre quatro e cinco anos e poderá ter como resultado a transformação de milhares de vidas, uma de cada vez.
 

Ajuda do Brasil

A ADRA Brasil destinou, inicialmente, 50 mil dólares para as Filipinas. Boa parte desse valor foi levantado por uma campanha no site da ONG. A agência já auxiliou 17.800 pessoas com alimentos em Northern Cebu e Iloilo. O plano é beneficiar 330 mil filipinos com banheiros e abrigos provisórios, além da distribuição de alimentos, água e kits de higiene. 
 

Números da tragédia

6.109 mortos
27.665 feridos
1.779 desaparecidos
14 milhões de vítimas em 57 cidades.
4 milhões ficaram desabrigadas.
Fonte: Conselho Nacional de Gestão e Redução de Riscos de Desastres (NDRRMC, na sigla em inglês). 
 

Para saber +

Autor: Leonardo Siqueira - Publicado em: 03/04/2014 - Fonte: