No ritmo da solidariedade

Neste coral, a música é só um detalhe, o importante mesmo é fazer a diferença
Divulgação: Chama Coral

 

O fim de semana prometia muita música, energia e diversão. Naquela sexta-feira, 13 de maio de 2011, o professor de Educação Física, Paulo Trindade, na companhia de alguns colegas, era um dos 45 mil espectadores da terceira edição do Lupa Luna. Eles queriam curtir um dos maiores festivais de música do Paraná, com uma mega estrutura voltada para atrações de pop-rock, onde se reúne gente de todo o Brasil. 
 
Logo na entrada do show, Paulo recebeu um flyer que prometia mais diversão que o Lupa Luna e, o melhor, de graça. O chamado “Leo Luda”, divulgado no panfleto, pareceu ser um programa interessante, por isso foi para o bolso de Paulo, em vez de ir para o lixo. 
 
O título “Leo Luda”, uma brincadeira com a expressão bíblica “Leão de Judá”, em referência a Jesus, fazia um contraponto ao nome “Lupa Luna”. Luna, por sua vez, era a deusa da Lua para os romanos. Mas Paulo não fazia a mínina ideia da conotação religiosa do trocadilho. Ele imaginou apenas que fosse alguém aproveitando o nome para atrair a atenção.
 
“O que me chamou a atenção foi justamente esse lance de você ter a curiosidade aguçada, de olhar e perguntar o que era aquilo, pois o flyer não dizia do que se tratava”, conta.
 
A festa 
A ação fazia parte de uma campanha do Chama Coral, ministério organizado em 28 de outubro de 2006 a partir da iniciativa de alguns voluntários do bairro Portão, em Curitiba. Durante o “Lupa Luna”, no ano passado, os integrantes decidiram que iriam até o local do evento para convidar e atrair os jovens para um programa diferente e descontraído, mas espiritual.
 
Paulo guarda o flyer, que fica dentro do carro até hoje, com o anúncio daquilo que, num primeiro olhar, prometia ser uma balada: “A energia continua em outra vibe. Neste domingo todo mundo vai estar lá”, dizia o panfleto. A ideia da “vibe cristã” havia sido sugerida pela direção do coral como uma forma de atrair os jovens que não vinculam igreja à curtição. 
 
Outra vibe
O que Paulo presenciou foi uma festa diferente das que estava acostumado a frequentar, mas ali também havia um grupo de jovens repleto de energia e com muita disposição. Decidiu voltar outras vezes, chegando ao ponto de passar de mero espectador a um dos integrantes do Ministério Chama Coral.
 
Paulo gosta de música, embora confesse que não é a pessoa mais afinada do mundo. Nem precisava mesmo. Por mais estranho que possa parecer, esse é um coral que não faz teste de voz. “Todo mundo que vier, canta. Esse é nosso princípio básico”, afirma o diretor do Ministério Chama Coral, Jefferson de Castro.
 
“A primeira preocupação nossa é dar maturidade e sustentabilidade espiritual para a moçada. Cantar é apenas uma consequência, é o que menos preocupa a gente”, afirma o maestro Kleber Augusto. Quem ainda não ouviu esse som pode até pensar que, por conta disso, a interpretação musical não é lá aquelas coisas. Engana-se. A harmonia produzida pelas 160 vozes dá gosto de ouvir e o coral se prepara para lançar seu primeiro CD em março.
 
ONG
Mas, no fundo, a música é apenas um detalhe nessa iniciativa jovem. Além de um grupo que canta, existe uma equipe que trabalha para imprimir um novo ritmo na vida de pessoas que moram em asilos, orfanatos ou que se encontram hospitalizadas. Claro, a música acaba sendo um instrumento para esse fim.
 
No ano passado, um sonho cultivado desde 2011 se tornou realidade com a criação do Instituto O Amor Chama. Os recursos gerados com a venda do primeiro CD do coral, aliás, serão revertidos para essa causa social. Uma das ações da ONG é adotar crianças da Apav e Acoa, duas entidades sociais curitibanas que abrigam crianças portadoras do vírus HIV. O papel do coral é entregar presentes e promover a festa do Dia das Crianças. Cem menores dessa instituição já foram ajudados.
 
Música e ação social
Em datas comemorativas, como o Dia dos Pais e Dia das Mães, o Ministério Chama Coral também entra em cena, organizando serenatas com o objetivo de valorizar a relação entre pais e filhos. Cerca de 2.500 pessoas já foram homenageadas nessas apresentações. Por meio da música, eles também trazem alegria e esperança para dezenas de pacientes em hospitais. Na Capital paranaense, 400 pessoas já receberam a visita dos integrantes nos Hospitais da Cruz Vermelha e do Trabalhador.
 
Outra frente de atuação do instituto é a distribuição de cestas básicas para famílias pobres e pessoas desabrigadas por causa de desastres naturais. Nas cidades paranaenses de Tijucas do Sul e Inácio Martins, 2.300 moradores foram atendidos.
 
Time do bem
Diego Garcia Pierchak, 24, também faz parte desse time que vive para fazer o bem. Ele, que já foi jogador de futebol profissional, com passagem por clubes como Figueirense (de Santa Catarina) e Juventude do Uruguai, hoje faz bonito em outra área. Diego conta que, desde a infância, cultivou o sonho de praticar a solidariedade. 
“Quando cursava o Ensino Fundamental, nossa classe visitou uma entidade social que atende crianças portadoras de necessidades especiais, físicas e mentais em Curitiba. Aquilo me sensibilizou e meu maior sonho era ganhar dinheiro para ajudar essas crianças”, relata.
 
Recentemente, quando essa possibilidade parecia mais próxima do que nunca, ele rejeitou uma proposta de um clube paulista, que prometia pagar inicialmente 30 mil reais por mês pelo passe do atleta. O coral, os amigos e os princípios religiosos falaram mais alto e ele dispensou aquela que, para os agenciadores e empresários, seria a oportunidade da vida dele.
 
Como titular, no entanto, da equipe de 160 componentes do coral, ele entende que não há preço que pague um gesto de gratidão resultante de uma atitude solidária. “O Ministério Chama Coral foi uma bênção na minha vida e está abençoando outras pessoas”, garante Diego.
 
 

Números da solidariedade

160 coristas
100 crianças com HIV “adotadas”
400 pacientes visitados
2.500 pais e mães homenageados
 

Para saber +

 
LEOLUDA
 
Autor: Márcio Tonetti - Publicado em: 01/01/2013 - Fonte: