O evangelho chega ao inferno

Projeto Cristolândia ilumina bairro dominado pelo crack e a prostituição
Eber Pola

Ao você se aproximar das ruas da “Cracolândia”, no centro de São Paulo, o cenário é desolador. São milhares de moradores de rua, na sua maioria, usuários de crack e cocaína. Uma região descrita na imprensa como boca do lixo. O tráfico de drogas a céu aberto divide espaço com a prostituição infantil, violência e o latrocínio. Nesse contexto de degradação humana, homens, mulheres e crianças vivem em um mundo paralelo, à margem da sociedade. 

 

Redutos de consumo de drogas em grandes cidades, como esse, aumentam no Brasil. Não é sem razão. O país é o maior mercado de crack do mundo e o segundo de cocaína. São 2,8 milhões de usuários. De acordo com uma pesquisa da Universidade Federal de São Paulo, cerca de 6 milhões de pessoas já experimentaram a cocaína, 442 mil delas são adolescentes de 14 a 18 anos.
 

O depoimento de jovens viciados confirma que os efeitos do crack são avassaladores. A droga gera dependência química já a partir das primeiras vezes que é usada, levando o usuário rapidamente ao estágio de mendicância e miséria total. Muitos abandonam a família, perdem o emprego e passam a viver na rua. As “cracolândias” concentram um grande número de pessoas que perderam sua identidade e dignidade.
 

Cristolândia

O Projeto Radical Brasil Cristolândia teve início em 2009, na cidade de São Paulo. Uma iniciativa da Junta de Missões Nacionais e da Convenção Batista Brasileira. O trabalho começou com um grupo de voluntários, vindo de diversas partes do Brasil, que decidiram colocar em prática o exemplo de Jesus: aliviar o sofrimento e levar esperança através da Palavra de Deus.
 

A abordagem direta aos usuários de drogas é feita oferecendo um serviço: café da manhã, almoço, jantar, banho com troca de roupas e corte de cabelo. É a forma que os voluntários encontraram de se aproximar e despertar a confiança dos usuários. Na sede do projeto é feito o acolhimento e, quando há interesse, o indivíduo é encaminhado para a internação, tratamento que leva até dois anos. 
 

Além de São Paulo, existem núcleos nas cidades de Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Brasília e no Estado do Espírito Santo. O estudo da Bíblia e a conversão para o cristianismo acabam sendo parte do tratamento. Muitos ex-dependentes optam pela vida de missionário no próprio projeto a fim de ajudar outras pessoas a trilhar o mesmo caminho de libertação. 
 

Invadir o inferno

Por trás de todo o movimento está o pastor Humberto Machado, o coordenador do núcleo de São Paulo. Ele também encontrou em Deus e na religião a vida após as drogas. Ainda jovem, ele se sentiu vocacionado para o trabalho evangelístico nos presídios. Missão que cumpriu por 14 anos. 
 

O ministro conta que ao visitar a Cracolândia, se perguntou se entre aquelas centenas de “nóias” não existia um coração clamando por socorro e desejando transformação. O passo seguinte foi recrutar voluntários para essa difícil tarefa.
 

“Precisamos nos tornar o verdadeiro milagre de Deus. Invadimos o inferno, saqueamos o território do inimigo e gritamos em voz alta que Jesus é o Senhor para a glória de Deus”, declara Humberto. Na opinião dele, as igrejas deixaram de incentivar os jovens e de criar oportunidades de trabalho evangelístico de rua. Humberto acredita que as denominações e os jovens precisam sair da zona de conforto. 
 

Da pichação para o rap 

“Aos 15 anos eu me identifiquei com a pichação e entrei para a Turma dos Ingratos. O desafio era pichar o mais alto possível. Quanto mais alto, mais famoso a gente ficava”, lembra Tiago Ideal, de 30 anos, que entrou pela porta da Cristolândia de muletas e com o pé quebrado. Ele havia caído bêbado de um beiral de um prédio, a 4 metros de altura, em uma madrugada de 2011. 
 

Com a perda da mãe aos 12 anos de idade, Tiago começou a usar maconha e aos 23 anos conheceu o crack puro. Após o acidente, ele ficou sabendo do projeto Cristolândia através de uma reportagem de TV. Quando chegou ao núcleo, foi bem acolhido e logo pediu que fosse internado na clínica de recuperação do projeto, em Itaquaquecetuba, região metropolitana de São Paulo.
 

Na clínica, Tiago passou a compor letras religiosas no estilo rap e foi batizado. Hoje ele faz parte da equipe de apoio do projeto e solta a voz para cantar sobre sua transformação nos cultos da Cristolândia organizados antes das refeições. 
 

Vida de cachorro

“Eu levo uma vida de cachorro”, declara o ex-marceneiro que vive nas ruas há quatro anos. Paulo, conhecido como “Perninha”, é usuário de crack e vive ao lado do prédio do projeto. A fala dele revela o sofrimento que é morar nas ruas. “Vivemos debaixo de sol e chuva, em meio à brigas, polícia e muita humilhação. Uma vida de cachorro sem dono. A minha força espiritual é muito forte senão já tinha me enforcado como fez Judas da Bíblia. Graças a Deus que tem uma igreja aqui na Cracolândia”, diz.
 

Elio Vieira Santo Júnior, 51 anos, também perdeu tudo por causa das drogas. “Elas entraram na minha vida como um furacão. Em 2007, deixei meu emprego em que ganhava 25 mil reais para morar na rua. De presidente de sindicato fui procurar comida rasgando sacos de lixo. Abri mão de tudo para ficar com o crack”, revela. 
 

O ex-gráfico do jornal O Estado de S. Paulo acredita que o vazio que todo mundo sente, como se fosse um nó na garganta, é a falta de Deus na vida. Segundo Elios, o prazer das drogas camufla esse vazio. O projeto o resgatou e lhe ofereceu uma nova vida. Hoje, ele se emprenha para ajudar outros. 
 

Vida após as drogas

O consumo de drogas no Brasil já é um grave problema de saúde pública, que saltou aos nossos olhos com a cobertura sobre o processo de desocupação das “cracolândias”. O projeto Cristolândia já resgatou 1.500 pessoas e mostrou que existe vida após as drogas. Os cristãos podem fazer muito para reverter esse quadro, basta transformar compaixão em ação. 

 

Para saber +

 
Autor: Eber Pola - Publicado em: 01/04/2013 - Fonte: