Quando a diversão vira evangelismo

Pista de skate, motoclube e escolinha de futebol. Conheça as iniciativas que transformaram opções de lazer em projetos sociais e missionários

Texto Francis Matos, Jefferson Paradello e Thiago Campossano

Eduardo Tzeciuk Filho competiu com skate durante seis anos, e chegou a ficar entre os cinco melhores amadores do Brasil. Ele nutre uma paixão pelo esporte radical inventado na Califórnia, no início da década de 1960, por surfistas que queriam adrenalina também no asfalto. Foi por causa da vontade de fazer do esporte e hobby sua missão, que Eduardo começou a organizar encontros de skatistas na região central de Curitiba, em janeiro de 2010. “Quando chamei meus amigos da igreja para participar do encontro, eles trouxeram mais convidados, e o grupo foi crescendo e se fortalecendo”, recorda Eduardo, popularmente conhecido como Orelha.

E o trabalho, chamado de Quinta Radical, tornou-se um ministério da Igreja Adventista Central de Curitiba, liderado espiritualmente pelo pastor dos jovens, Felipe Masotti. Tudo que os jovens precisavam era de um espaço para realizar suas manobras radicais, sem o perigo do trânsito da cidade, por isso, o estacionamento e ginásio do Colégio Adventista do Bom Retiro foram transformados em território da galera do skate. “Sempre iniciamos com uma mensagem espiritual, de forma descontraída, falando a linguagem deles e assuntos de interesse deles. Mesmo durante a prática do esporte, sempre há espaço para conversas sobre temas espirituais”, conta o pastor.

Emocionado, Orelha lembra que o amigo Williams Selzelin Braga foi um dos responsáveis por ele abraçar a fé adventista: “Quando competia aos sábados, eu o convidava para assistir e ele sempre me falava sobre a santidade do dia, aconselhando-me a ser fiel a Deus.” Hoje é Orelha que usa o esporte para ajudar espiritualmente o amigo.

Carlos César Ferreti Filho é um exemplo do alcance missionário do trabalho. Num contato profissional, sua mãe conheceu Darlene Schlemper Corrêa, esposa de Orelha. Por causa disso, César passou a participar dos encontros esportivos e outras reuniões sociais da igreja, como o retiro espiritual no Carnaval. Hoje, César estuda a Bíblia com outro jovem. “Isso mostra a importância de reunir os jovens em atividades que eles gostam de fazer e como estas podem se tornar oportunidades evangelísticas”, explica o pastor Masotti. No fim do ano passado e início deste, os encontros foram suspensos por causa das construções na escola, mas retornou tão logo foi possível atendendo aos pedidos do grupo.

Sobre duas rodas

Foi um anúncio veiculado na rádio Novo Tempo de Curitiba no fim de março deste ano que mudou os planos da estudante Luana Soares de Aquino, 27 anos. Ao saber que a emissora estava convidando pessoas para ingressar num motoclube, Luana teve seu interesse despertado. Apaixonada por duas rodas, ela também viu no motoclube uma chance de se reaproximar da igreja, a qual não frequentava havia seis anos.

Duas semanas depois, Luana já estava na estrada com outros 13 motociclistas que rodaram mais de 260 quilômetros para ajudar fiéis da Igreja Adventista de duas pequenas cidades do interior paranaense a distribuir exemplares do livro Ainda Existe Esperança. Naquela altura, ela já tinha deixado seu emprego para não trabalhar aos sábados e já não frequentava mais as aulas nas sextas à noite. E para completar, havia recrutado o padrasto e um vizinho para encarar o asfalto. “Acredito que essa atividade vai me fortalecer muito. E isso vai me ajudar a participar de alguma coisa e estar próxima aos outros membros”, aposta. “Decidi mudar totalmente, e isso não foi difícil”, completa.

Fundado não apenas com o propósito de compartilhar o gosto pela aventura nas estradas, o motoclube Esperança, nome escolhido pelo grupo, busca ser um braço para apoiar a igreja em suas atividades, principalmente em localidades que têm pouca ou nenhuma presença adventista. E Luana é o primeiro resultado do trabalho da equipe, que hoje já conta com 50 pessoas.

Primeira missão

Nas duas cidades que visitaram em sua primeira “missão”, Tunas do Paraná e Adrianópolis, não só os motociclistas, mas aqueles que fizeram parcerias com eles, já perceberam que a ideia pode muito bem contribuir para que outras pessoas desejem estudar a Bíblia. Com a ajuda dos membros da igreja, que não somam mais do que 60 pessoas nas duas localidades, foram distribuídos 1.050 livros.

E quem estava de moto, é claro, foi enviado para os lugares mais distantes, incluindo sítios e fazendas. “Com o número de membros que temos, iríamos fazer a distribuição em várias etapas, e isso ia demorar quase um mês. Em quatro anos nunca tive uma ajuda tão abrangente quanto essa”, comemora o pastor César Maciel da Rosa, que coordena as atividades nos dois municípios.

A iniciativa de fundar o motoclube partiu do pastor Jonas Wendrechovski, locutor da rádio Novo Tempo de Curitiba, que teve o insight de mesclar um hobby com uma atividade missionária. “A ideia era juntar quem tem a paixão por andar em duas rodas, o que dá um senso de liberdade, para falar de Jesus e da experiência de viver segundo a ‘lei da liberdade’, como diz Tiago 2:12”, explica. “Queremos que a igreja se torne conhecida por meio desse movimento”, projeta.

O grupo de motociclistas da Igreja de Jardim das Américas, também em Curitiba, está empolgado com os resultados do motoclube promovido pela Rádio Novo Tempo. Os jovens de lá também decidiram fazer desta paixão sua missão. Embora seja mais antigo que o da rádio, as atividades dos jovens se restringiam a viagens e passeios.

O nome do grupo saiu de uma brincadeira: Gorgomilos Sagazes, mas, de acordo com o fundador Lincoln Artndt, a partir de agora a aventura é coisa séria. “Isso vai ser um motivo ainda maior para nos encontrarmos, porque vamos curtir nosso hobby, estar entre amigos e pregar a mensagem”, diz Lincoln, que leva na garupa a motoqueira Bruna Arndt, sua esposa.

Gol de placa

Cravada num território geograficamente pequeno, mas populacionalmente muito denso, a Associação Paulista Leste tem o desafio de pregar o evangelho em bairros paulistanos em que as carências sociais saltam aos olhos. É por causa desse contexto, que a sede administrativa decidiu apoiar a Ação Solidária Adventista na implementação do projeto Gol de Esperança, inciativa que nasceu no coração dos pastores Jair Miranda e Carlos Alberto Batista da Silva. A ideia é fazer da escolinha de futebol gratuita um caminho para a ascensão social da comunidade e uma ponte evangelística que ligue a igreja às famílias assistidas.

Para Jair e Carlos Alberto, o esporte faz parte da vida. Jair tem formação em educação fisica, foi jogador do Treze Futebol Clube e realizou em João Pessoa, PB, um projeto semelhante ao Gol de Esperança. Carlos Alberto também conhece bem a vida de concentração e atuação nas quatro linhas. Foi campeão mundial pelo São Paulo, em 1992, e vestiu a camisa do Santos, Paraná Clube e Bragantino. Agora, jogando em outro time, os dois querem ajudar garotos pobres a olhar a vida com outra perspectiva.

Pablo Oliveira Cardoso, 15 anos, é o típico adolescente que procura o projeto. Com fome de bola, ele só pensa em ser jogador profissional. Apesar de sorrir positivamente quando perguntado se vê os colegas de rua e escola como concorrentes, ele torce para que todos consigam um lugar ao sol.

Rosemeire Santana dos Anjos, encarregada de limpeza, tem o perfil das mães que se interessam pelo projeto. Há 11 anos ela deixou a Bahia para tentar a vida na cidade grande. Tem cinco filhos, em escadinha, os quais cria sozinha. Um deles, de 14 anos, está envolvido com drogas. No dia 14 de maio, ela foi na inauguração do Gol de Esperança do bairro União de Vila Nova, na Zona Leste, para inscrever três filhos: Washington, Lincoln e Jailton. O desejo da mãe é que os meninos sigam caminho diferente do irmão dependente químico. Por isso, ela se sente reponsável em dar um empurrão na carreira dos meninos.

Nova perspectiva

Os líderes do projeto sabem que a maioria dos garotos atendidos pelo Gol de Esperança não vai ter como profissão o futebol. Por isso, não querem se limitar as atividades das quatro linhas. A proposta do Gol de Esperança é unir esporte, reforço escolar, orientação familiar, geração de renda e ensino da Bíblia. Ao adolescente se inscrever, ele passa por uma avaliação física para identificar suas potencialidades funcionais, características anatômicas e composição corporal. Caso apareçam anormalidades, ele é encaminhado para exame clínico com especialista da área médica. Os meninos também passam por avaliação psicológica, a fim de se identificar possíveis traumas. Em seguida, ele começa a fazer treinos físicos e táticos de futebol de campo.

Os pais são estimulados a participar semanalmente de uma reunião que tratam de saúde preventiva, educação de filhos e planejamento familiar. Em breve, o projeto deve oferecer oficinas profissionalizantes, para que as famílias “não apenas recebam o peixe, mas aprendam a pescar”. Os pais também são obrigados a acompanhar e informar o desempenho e a frequência escolar dos filhos. E caso o garoto tenha dificuldade nos estudos, são dadas aulas de reforço. A ponte do projeto para a igreja se dá através da integração da garotada no Clube de Desbravadores – por isso a escolinha atende apenas meninos de 10 a 16 anos – e da visita regular de um instrutor bíblico, que oferece suporte espiritual às famílias.

Hoje, o Gol de Esperança tem dois núcleos, cada um atendendo 90 garotos. Com o apoio da Prefeitura Municipal de São Paulo, que cede professores de educação física e as quadras para a prática do futebol, os organizadores pretendem chegar a seis núcleos até o fim do ano. Para o pastor Jair Miranda, as igrejas adventistas devem se despertar para iniciativas como essa que, segundo ele, alcançam pessoas que dificilmente visitariam nossos templos e se interessariam por nossa abordagem tradicional. Fazendo alusão à encarnação de Cristo, que vestiu a pele humana para salvar a humanidade, ele conclui: “Já passou da hora de quebrarmos alguns paradigmas e sair do casulo. Não estou dizendo que não fazemos isso, mas podemos avançar mais. A igreja precisa interagir com a comunidade, ir onde as pessoas estão.”

Reportagem publicada na Conexão JA de julho-setembro de 2011, nas páginas 27 a 29.

Autor: admin - Publicado em: 03/04/2014 - Fonte: