Da Bíblia para as telonas

Saiba por que Hollywood investiu em uma nova safra de filmes bíblicos e como eles podem incentivar a discussão sobre o livro mais vendido no mundo
Divulgação: Paramount Home Media

Quem assistiu ao épico Noé e conhece a história bíblica, provavelmente torceu o nariz ao ver que a adaptação do cineasta Darren Aronofsky não foi exatamente o que muita gente esperava. Especialmente o público religioso. Como a própria Paramount Pictures destacou, o filme não deveria ser visto como uma história recontada linha por linha, mas como a dramatização de temas bíblicos mais amplos. No que a produção parece não falhar, como era de se esperar, é nos efeitos especiais e na ação.

No filme, anjos caídos, representados por gigantes de pedra, ajudam o patriarca a construir a arca, enquanto Tubalcaim (Gn 4:22), personagem que na Bíblia é descrito como descendente do rebelde Caim, prepara um exército que quer conquistar a embarcação.

Adaptado de uma história em quadrinhos homônima publicada em 2006 por Aronofsky e o produtor Ari Handel, o filme foi um sucesso de bilheteria nos Estados Unidos, com quase 43 milhões de dólares em ingressos vendidos no país. Segundo dados do site Box Office Mojo, o filme, que está disponível em DVD, Blu-ray e Blu-ray 3D desde 1º de agosto, havia arrecadado mais de 345 milhões de dólares em todo o mundo.

Mas Noé não foi o único longa-metragem de temática bíblica a estrear no cinema. O Filho de Deus, uma adaptação da série A Bíblia (The Bible), que primeiro fez sucesso nos Estados Unidos para depois bater recordes de audiência na América Latina e no Brasil, também foi para as telonas.

Com cenas inéditas, a produção não contou com o mesmo orçamento que o épico Noé, embora fosse mais fidedigna ao relato bíblico. "O filme não tinha a pretensão de ser um blockbuster, mas os resultados poderiam ter sido melhores. Vender 100 mil ingressos é um número muito modesto para o padrão brasileiro", conta Laércio Bognar, diretor da Diamond Films Brasil, distribuidora do grupo Telefilmes.

Mas a lista de épicos bíblicos não para por aí. Exodus, de Ridley Scott, deverá ir às salas de cinema norte-americanas ainda neste ano e contará com nomes como Christian Bale, Sigourney Weaver e Ben Kingsley no elenco. No Brasil, o lançamento do longa está previsto para o início de 2015.

Mercado religioso?

Estaria a indústria do cinema também interessada no público religioso? Para Bognar a resposta é não. "É mera coincidência. O público não demonstra se quer ou não este tipo de conteúdo. Quando se tem um filme grande, um blockbuster como Noé ou Exodus, as empresas pegam carona por saberem com certa antecedência que estes filmes serão lançados. Aí fica a impressão de que o mercado está demandando um filme do gênero X", explica Bognar, que desde dezembro do ano passado dirige a distribuidora responsável pelo lançamento do filme O Filho de Deus.

Como exemplo, o executivo cita uma série de títulos que foram lançados recentemente e que tratavam de temáticas semelhantes. "Hollywood é quem determina esse tipo de situação. E não é a primeira vez que isso ocorre. Neste ano mesmo, por exemplo, por coincidência, lançamos o filme Hércules em janeiro e, em setembro, haverá outro filme chamado Hércules, que será distribuído pela Paramount", cita.

Bognar também citou um caso do ano passado, quando duas produções abordaram o mesmo assunto: um ataque à Casa Branca. No Brasil, um ficou conhecido como O Ataque (The White House Down) e o outro como Invasão à Casa Branca (Olympus Has Fallen), com o ator Morgan Freeman.

Para o especialista em religiões e arqueologia do Oriente Médio, James Hoffmeier, Hollywood está percebendo que as histórias que mais influenciaram a civilização ocidental foram esquecidas ou mal retratadas em produções anteriores. Por isso, ele acredita que “os cristãos deveriam ficar atentos para aproveitar a oportunidade de tais filmes para se engajar em profundas questões teológicas que essas histórias contêm", sugere.

Já o produtor e professor de Antigo Testamento, Grenville Kent, acredita que a capital do cinema tem lá seus motivos para se interessar pelas histórias incríveis e atemporais da Bíblia. "É um mercado grande e lucrativo que os cristãos e judeus podem formar, ainda que os fãs do livro sagrado quase sempre sintam-se desapontados quando Hollywood distorce as histórias da Bíblia, como ocorreu com o filme Noé", comenta o australiano.

Desafios da adaptação

Adequar qualquer história para o cinema é sempre um desafio. "Adaptar do livro para a tela é sempre difícil, e as adaptações bíblicas são um desafio porque muitas de suas histórias são longas e detalhadas, o que faz com que haja a necessidade de cortes", contextualiza Kent.

Na opinião de Hoffmeier, existe uma tensão entre a liberdade artística do roteirista e a fidelidade ao texto bíblico. "Os filmes tendem a enfatizar aspectos da narrativa bíblica que não eram de suma importância para o autor original. Ao cinema fazer isso, o leitor fica no comando, não mais o autor, e esse é um procedimento muito perigoso", diz o professor da Trinity International University (EUA).

Por outro lado, o cinema lida com uma linguagem e técnicas próprias, e geralmente é no fim do filme que o escritor revela a mensagem que deseja comunicar. "Eventos emocionantes podem ocorrer durante a história, mas um bom final é o melhor momento, não apenas porque nos conta o que acontece, mas porque nos dá uma visão mais ampla que revela o sentido geral da história e, quem sabe, das nossas vidas", contrapõe Kent.

Não por acaso, diz Kent, quase sempre o telespectador espera um "final feliz". "Muitas histórias bíblicas têm um final triste. Pense em João Batista que teve a cabeça cortada por dizer a verdade", exemplifica.

As peculiaridades da linguagem visual do cinema são outro ponto que deve ser considerado, especialmente pelo público cristão que está acostumado com sermões e filmes com um forte apelo "evangelístico". Para Kent, que dirige e apresenta a série Big Questions, sobre ciência e religião, os religiosos não podem esperar de um filme a linguagem utilizada nos púlpitos, muitas vezes com frases prontas e lições de moral.

Nessa linha ainda, ele defende que os filmes cristãos também podem ser eficazes como produções evangelísticas, desde que simplesmente contem histórias e deixem o público decidir o que fará com ela. “Histórias épicas são entendidas de formas complexas e em muitos níveis", analisa. Por isso, aconselha Kent: "Mostre e não conte."

Efeito colateral

Mesmo sob fortes críticas dos cristãos, o filme de Aronofsky, ao que parece, estimulou a leitura do livro sagrado. É o que indicou o aplicativo de leitura da Bíblia mais popular do planeta, o YouVersion. Já no fim de semana de estreia do longa, a leitura da história de Noé, a partir do capítulo 6 de Gênesis, aumentou 300% nos Estados Unidos e 245% em outras partes do globo. As estatísticas foram divulgadas no Twitter pela equipe responsável pelo aplicativo. Para eles, trata-se do maior crescimento na leitura de um trecho específico desde a criação do programa.

Mas, mesmo atingindo números expressivos de bilheteria, o blockbuster não entrou para a lista dos filmes religiosos mais vistos nos Estados Unidos (ver o box "Top 5"). Coincidência ou não, o fato é que Hollywood continuará lucrando com filmes como Noé. Nem que para isso tenha que acrescentar certa liberdade ou licença poética ao texto original. Na avaliação de Bognar, que tem mais de uma década de experiência na indústria cinematográfica, os filmes que continuarão fazendo sucesso têm algumas características em comum: um bom elenco, orçamento generoso e um trailer cativante. E é claro, têm que divertir o público.

Top 10 religiosos

Os Dez Mandamentos (1956)
Ben-Hur (1959)
Sansão e Dalila (1949)
O Manto Sagrado (1953)
A Paixão de Cristo (2004)
Quo Vadis (1951)
As Crônicas de Nárnia: o Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa (2005)
A Bíblia (1966)
Salomão e a Rainha de Sabá (1959)
O Príncipe do Egito (1998)
Fonte: site da revista Veja, em 21.04.2014.

Gênesis segundo Aronofsky

Como era de se esperar, existem muitas diferenças entre o que a Bíblia diz sobre Noé e o que foi mostrado nos cinemas (atenção, spoilers abaixo). Algumas divergências são periféricas e poderiam ser encaradas como licenças artísticas, enquanto outras são centrais e mostram que o filme é uma releitura da Bíblia.

Bíblia

(1) Deus falou com o profeta e pediu que ele construísse uma arca (Gn 6:13, 14).
(2) Noé era um homem justo e bom (Gn 6:9).
(3) Apenas o patriarca, sua esposa, seus três filhos e noras entraram na embarcação (Gn 7:13).
(4) Noé foi chamado também para pregar a fim de salvar o máximo de pessoas (2Pe 2:5).

Filme

(1) Noé tem visões e conta com a ajuda de gigantes de pedra (anjos rebeldes) para construir a arca.
(2) Noé se mostra instável e tenta matar as netas que nasceram na arca.
(3) Tubalcaim, descendente de Caim, invade a arca e tenta convencer Cam a matar o pai.
(4) Deus privilegia Noé e parece não mostrar compaixão para com o resto da humanidade.

Autor: Leonardo Siqueira - Publicado em: 05/07/2014 - Fonte: