Igrejas verdes

Organizações cristãs começam a despertar para a responsabilidade ambiental. Mas a causa ainda não está na lista de prioridades
Thiago Lobo

O ideal da sustentabilidade chegou às igrejas cristãs brasileiras. Pelo menos para aquelas que enxergaram a relação entre a salvação do homem e a preservação do planeta. Afinal de contas, a gestão cuidadosa da criação sempre foi um mandato bíblico, que ganha maior importância nesses tempos em que a Terra dá sinais de falência.

 

Movimentos isolados, de diferentes igrejase ONGs, têm começado a fazer a diferença na real. Recentemente, a biológa Gínia César Bontempo reuniu algumas experiências pelo Brasil afora no livro Assim na Terra Como no Céu (Ultimato, 2011). “Há vários exemplos concretos de pequenas e grandes igrejas, urbanas e periféricas, do sertão e da mata atlântica exercendo um evangelho integral, do qual o cuidado com toda a Criação, inclusive a criatura, faz parte”, afirma ela.

 

Salve o parque!

Um desses casos é a ONG mineira Oikos Brasil – Espiritualidade Ecológica. O grupo nasceu em 2005, dentro da Segunda Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte, mas se abriu para adeptos de outras correntes religiosas. Além de promover seminários de educação ambiental e caminhadas ecoespirituais, a organização tem como principal objetivo a defesa de parques ecológicos. 

 

Uma das experiências de sucesso aconteceu com o parque Ursulina de Andrade Melo, área de 242 mil m² dentro de um bairro de classe média de “Beagá”. “De início, pensamos em montar um conselho gestor para que a comunidade da região pudesse ter participação mais efetiva. Como isso é muito burocrático, fundamos o Fórum Amigos do Parque Ursulina, um espaço mais aberto para discutir o futuro da reserva natural”, conta o o pastor, psicólogo e professor universitário Éser Pacheco, presidente da Oikos Brasil.

 

Mobilização

As reuniões do fórum aconteciam no próprio parque. Estudantes, moradores, funcionários do parque, pesquisadores, ambientalistas, gestores da Fundação Municipal de Parques e, claro, os fiéis participavam com sugestões de preservação ambiental. Como nem só de ideias vive o homem, logo os voluntários partiram para ações práticas. “Plantamos mudas em uma área degradada por incêndio, reinvidicamos a melhoria do cercamento e conseguimos que uma rua interna fosse fechada para carros, pois invadia uma área de recomposição do lençol freático”, recorda Éser. 

 

A ONG ainda participou de assembleias junto à prefeitura e fez parcerias com academias e escolas para patrocinar caminhadas e outras atividades físicas. “Para 2013, nossos planos são subsidiar um trabalho de educação ambiental no Parque Estadual Serra do Rola-Moça, na região metropolitana de Belo Horizonte, minimizando o impacto humano no entorno da área”, planeja o pastor.

 

De dentro para fora

Que fique claro: o casamento entre religião e sustentabilidade não passa exclusivamente pelo altar. A ONG cristã A Rocha Brasil, por exemplo, nasceu a partir de membros da Igreja Batista de Indaiatuba (SP) mas transcendeu seus limites e hoje não tem vínculo com nenhuma denominação. Em 2012, com a chegada da megaconferência internacional Rio+20, o grupo criou o projeto coletivo “Igrejas Ecocidadãs”. 

 

“Nossa proposta é informar as igrejas brasileiras sobre as questões fundamentais do meio ambiente e mobilizá-las para ações práticas. As ferramentas de estratégia envolvem material especializado, celebrações, redes sociais virtuais, estudos bíblicos e spots em rádios”, descreve a bióloga Raquel Arouca, uma das coordenadoras do empreendimento.

 

Com um punhado de ousadia, o projeto Igrejas Cidadãs chegou a entrar no território da ONU como observador e participou da programação oficial da Cúpula dos Povos, organizada pela sociedade civil em paralelo com a conferência. Findo o Rio+20, o projeto se manteve. Melhor: cresceu. Expandiu as fronteiras d’A Rocha Brasil e passou a contar com o apoio de mais igrejas e financiamento de ONGs internacionais, como a inglesa Tearfund. “A meta agora é continuar a sensibilizar e mobilizar as igrejas, mas também de começar a trabalhar com as pessoas e grupos que já foram sensibilizados”, antevê. 

 

Óleo e sabão

Na Igreja Adventista, a mensagem socioambiental ainda não decolou. As escolas da rede fazem a lição de casa, colocando a temática em destaque nas aulas, feiras e projetos comunitários. Mas o estímulo ainda é pequeno em boa parte das congregações. “Como profissional da área, não percebo muito engajamento nessas questões. O meio ambiente não é uma prioridade e o assunto não costuma ter ênfase no púlpito”, lamenta o engenheiro florestal Djeison Batista, professor da Universidade Federal do Espírito Santo, com doutorado na área pela UFPR.

 

Por ora, a tarefa de fazer algo em favor do planeta fica a cargo do Clube de Desbravadores e Aventureiros, agremiações que há décadas incentivam o contato e o cuidado com a natureza. O próprio Djeison conta uma experiência interessante que teve com o grupo de adolescentes que lidera no município de Jerônimo Monteiro (ES): reciclagem de óleo para fabricar sabão. “Depois de instruir as crianças e adolescentes sobre o potencial poluidor do líquido quando descartado no ralo da cozinha, escolhemos um bairro carente da cidade e fomos de casa em casa pedir que os moradores guardassem o óleo usado para reutilização”, relata.

 

Equipados com folhetos explicativos e até um imã de geladeira confeccionado especiamente para o projeto, os desbravadores conseguiram recolher 120 litros de óleo em cerca de cem casas. Com a ajuda de duas voluntárias da igreja local, iniciaram o processo de preparo do sabão. E haja sabão! “Depois de pronto, os jovens voltaram às casas em que haviam recolhido a matéria-prima e presentearam os moradores com o novo produto. E olha que nem usamos todo óleo”, comemora Djeison. O projeto deu tão certo que a prefeitura já sinalizou planos de incorporar à agenda oficial do município uma oficina de fabricação de sabão. “Além de ajudar a salvar o planeta, pode se transformar em uma fonte de renda para comunidades carentes”, projeta o engenheiro.

 

Ambiental e social

A propósito, a fusão dos problemas ambientais e sociais é um ponto importante da mensagem ecológica cristã. “Muitas igrejas estão preocupadas com a pobreza, mas, se associarem essa questão ao meio ambiente, terão grandes chances de implementar projetos dignos de provocar mudanças substantivas e garantir um futuro sustentável”, analisa a antropóloga Andréa Zhouri, coordenadora do Grupo de Estudos em Temáticas Ambientais da UFMG.

 

Ela lembra que o conceito de sustentabilidade, afinal, vai além da simples conservação ambiental. “Uma sociedade verdadeiramente sustentável também precisa incorporar o sentido de justiça social e a distribuição equânima do meio ambiente. As igrejas têm papel importante nesse pensamento, pois articulam o sentido de comunidade e incentivam as pessoas a agir de forma ativa na sociedade, com ideias de compromisso, pertencimento e solidariedade.”

 

Mudança total

E o que falta para isso realmente acontecer? Bem, em primeiro lugar acabar com a dicotomia entre matéria e espírito, corpo e alma. É que, ao longo dos séculos, o cristianismo incorporou essas supostas dualidades que limitaram o evangelho à transformação espiritual. O ponto é que a mensagem cristã se propõe a reconciliar o homem com Deus, consigo mesmo e a natureza.

 

“No passado, as igrejas cristãs até já se envolveram mais, até mesmo sem perceber, pois não separavam gente de ambiente. Hoje, as instituições temem perder o foco de sua missão, a pregação do evangelho; concentram-se em alcançar a alma do indivíduo, deixando de lado sua vida na Terra ”, contrasta a bióloga Gínia Bontempo.

 

O engenheiro florestal Djeison Batista reforça ainda que a responsabilidade ambiental está prevista em Gênesis (dê uma espiada nos capítulos 1:26-30 e 2:19, 20). “Ao fazer parte da obra da Criação, o homem se tornou o responsável por cuidar da fauna, da flora e da biosfera. É uma doutrina bíblica, que precisa urgentemente fazer parte da pauta das igrejas, defendida não apenas por grupos isolados, mas também pelas próprias organizações”, apela. Se a multidão realmente se engajar, o futuro promete.

 

No Céu e na Terra

Conheça algumas ONGs cristãs socioambientais ao redor do mundo:

 

Pão para o Mundo (Brot für die Welt): com sede na Alemanha, apoia projetos ligados à agricultura sustentável, como hortas comunitárias e capitação de água para a chuva. 

 

Christian Aid: busca combater a fome e a pobreza em países subdesenvolvidos e oferecer socorro em catástrofes. Foi criada em 1945 pelas igrejas do Reino Unido e da Irlanda para ajudar na reconstrução da Europa pós-guerra.

 

Oxfam: confederação de 17 organizações com sede em Londres e escritórios em 90 países. Faz campanhas com os mais ricos para combater a pobreza, a injustiça e atuar em emergências.

 

Misereor: estabelecida em Hamburgo, na Alemanha, apoia projetos de suporte a minorias raciais e sociais e de política agrária entre os pequenos produtores.

 

Cidadão X governo

54% das pessoas acreditam que o principal causador de problemas ambientais é a população, mas...

48% deles defendem que a resolução cabe ao poder público

Fonte: ONG Oikos Brasil
 

Bom exemplo

A galera do Centro-Oeste está de parabéns. Na segunda edição do campori de desbravadores da região, em setembro do ano passado, o jornal local do SBT fez uma reportagem em tom elogioso sobre as ações sustentáveis do acampamento. O destaque ficou por conta dos portais dos clubes, feitos de material reciclável, como jornais, garrafas PET, pneus e caixinhas de suco. O campamento foi realizado no Parque da Cidade, em Brasília. 

 

8 mil acampantes abraçaram a Lagoa dos Patos

15 mil folders de papel reciclado distribuídos

3 mil sacos de lixo recolhidos do parque

4,5 toneladas de lixo produzidas no acampamento foram para a reciclagem

 
Autor: Fernando Torres - Publicado em: 01/04/2013 - Fonte: