Mais do que imaginação

Como o uso da ficção na produção cultural cristã pode ajudar a recontar a maior das histórias
Arte digital / Eduardo Olszewisk
Um estudante de medicina. Uma esposa infeliz. Um dono de restaurante. Uma professora idealista. Um pescador. Uma estudante de psicologia. Um jornalista ambicioso e uma dona de casa são alguns dos personagens da ficção O Fim do Começo, lançada em setembro do ano passado pela Casa Publicadora Brasileira (CPB). A obra teve aceitação imediata pelo público jovem a ponto de em poucos meses ser necessário imprimir novos exemplares do livro. O sucesso se deve, certamente, a dois fatores: boa divulgação pelo Twitter e o gênero da obra. 
 
O Fim do Começo, primeiro livro da professora e jornalista Carolina Costa Cavalcanti, com base em seu lançamento, parece ter potencial para repetir o sucesso de outra ficção adventista sobre o fim do mundo da década de 1980: Projeto Sunlight, de June Strong (ver box “De olho no futuro”). Com tiragem de 123 mil exemplares, o livro se tornou um clássico no contexto denominacional brasileiro, marcando uma geração.
 
No entanto, a escassez de obras com essa linguagem pode apontar para uma resistência histórica da Igreja Adventista quanto ao uso da ficção em suas produções culturais. Postura que parece não atender a expectativa da maioria dos fiéis, ávida por consumir produtos desse tipo. Interesse de consumo talvez ainda mais forte no público geral. Prova disso, é que títulos como A Cabana, Comer, Rezar e Amar e A Batalha do Apocalipse estão há meses nas listas dos mais vendidos. É a mágica fórmula editorial de se tratar um tema popular, espiritualidade e misticismo, com uma linguagem envolvente, a ficção. 
 
O editor de livros da CPB, o pastor e jornalista Marcos De Benedicto, acredita que essa resistência histórica não foi peculiaridade dos adventistas, mas também se deu no meio evangélico. No entanto, ele observa que, especialmente nos Estados Unidos, tem crescido o número de títulos cristãos que se valem da ficção. Marcos explica que no caso da CPB existe o cuidado de que os livros dessa natureza transmitam um valor moral e religioso, além de terem como ponto de partida a realidade, quando não, a própria Bíblia. 
 
Diante disso, o objetivo desse artigo é analisar por que é válido o uso da ficção na literatura cristã, o que Ellen G. White pensava sobre a questão e como esse recurso pode ser utilizado pelos adventistas. 
 

Ellen G. White e a ficção

Todos gostam de uma boa história. E há uma razão clara para isso: somos protagonistas de uma trama que está inserida num enredo maior, cósmico. Pare e pense sobre isso. Tudo o que somos, nosso caráter e identidade, está vinculado a uma história – ou seja, nos eventos do passado, em nossa situação atual e também nas metas significativas que queremos alcançar no futuro. Quando refletimos sobre nossa experiência de vida, percebemos que ela possui começo, meio e possíveis fins, tudo unido em uma história que podemos, em certo grau, contar. Essas histórias dão sentido a eventos que de outra forma estariam isolados e mesmo sem significados.
 
Apesar de a maioria das pessoas ser atraída por boas histórias, os adventistas em geral têm demonstrado receio quanto ao uso da ficção, mesmo para fins evangelísticos.1 Em parte, isso se deve a uma leitura fragmentada dos conselhos de Ellen G. White sobre o assunto. Muitos tendem a interpretar a posição dela como rejeição a todo e qualquer tipo de ficção. Mas seria isso?
 
O fato é que Ellen G. White apreciava e até recomendou obras de ficção, como O Peregrino, de John Bunyan, considerada uma das mais conhecidas “alegorias” já escritas. O livro conta a história de Cristão, que foge de sua cidade (a Cidade da Destruição) em direção à Cidade Celestial. No caminho, ele encontra personagens – tais como Hipocrisia e o gigante Desespero – que tentam desviá-lo de seu objetivo. E também personagens que o auxiliam, como Boa-Vontade e o Sr. Intérprete. A história é claramente uma obra de ficção que descreve a vida cristã.
 
Sobre esse livro, Ellen G. White escreveu: “Em fétido calabouço, repleto de devassos e traidores, John Bunyan respirava a própria atmosfera do Céu; e lá escreveu a maravilhosa alegoria da viagem do peregrino, da terra da destruição para a cidade celestial. Por mais de dois séculos aquela voz da cadeia de Bedford tem falado com poder penetrante ao coração das pessoas. O Peregrino e Graça Abundante ao Principal dos Pecadores, escritos por Bunyan, têm guiado muitos ao caminho da vida” (O Grande Conflito, p. 252). Ellen G. White chegou a escrever uma obra. Em 1878, ela compilou uma série de histórias – algumas reais, outras fictícias – e as publicou com o título de Sabbath Readings for the Home Circle (Leituras Sabáticas para o Círculo Familiar). 
 
Por que, então, Ellen G. White falou contra obras de ficção? A preocupação dela com esse tipo de literatura pode ser resumida do seguinte modo: “(1) tende a viciar; (2) pode ser sentimental, sensacional, erótica, profana ou barata; (3) é escapista, fazendo com que o leitor regrida a um mundo de fantasia e seja menos capaz de enfrentar os problemas da vida de cada dia; (4) desqualifica a mente para estudo sério e a vida devocional; e (5) consome tempo e é sem proveito.”2
 
Após analisar essas razões, Scott E. Moncrieff, professor de literatura inglesa na Andrews University (EUA), sugere que “as condenações específicas de ficção por Ellen G. White indicam, inversamente, as condições sob as quais ela poderia tê-la apreciado. Embora seja claro que ela faz muitas afirmações contra a novela e a ficção, uma condenação em massa do gênero contradiria sua própria prática e não estaria de acordo com as razões pelas quais ela condena ficção”.3 O bom uso da literatura não é apenas lícito, mas altamente recomendável (veja o box “Guia de leitura”). 
 

A inspiração

Paulo mostra, em Atos 17:24, que o nosso ponto de partida para qualquer história deveria ser o principio de que Deus fez todas as coisas boas. Embora o pecado tenha desfigurado a criação, Deus está comprometido em restaurá-la. É necessária a mais firme adesão ao princípio da sola Scriptura, que coloca a Bíblia acima de todas as coisas, como regra de fé e conduta. Veja como a Bíblia tem o enredo perfeito de uma grande história: ela tem o começo fundamental (a criação do Universo), a grande batalha (o conflito entre Cristo e Satanás), o momento crucial (a morte na cruz) e o final perfeito (a volta de Cristo). Ela incorpora tragédia (o drama da queda do pecado, as realidades do sofrimento, o juízo e a cruz), mas com um final feliz (a ressurreição e a segunda vinda de Cristo). Dificilmente o ser humano teria imaginado ou construído por si mesmo verdades tão fantásticas. 
 
As boas-novas de salvação por meio de Jesus Cristo são o tema central da Bíblia, uma mensagem que não só se destina à evangelização dos não cristãos, mas ao crescimento espiritual dos fiéis que levam esse Livro a sério. Todas essas narrativas encontradas na Bíblia são presentes de Deus para uma humanidade sedenta por histórias que deem sentido à vida e a transformem. Nada contra as demais histórias, mas apenas aquelas baseadas na salvação em Jesus podem conseguir reunir os ingredientes necessários para uma efetiva propagação da mensagem cristã. 
 
C. S. Lewis, autor da famosa série As Crônicas de Nárnia e ícone do uso da ficção na literatura cristã, afirma que existe “um tipo particular de história que tem um valor por si próprio, um valor independente de qualquer contexto literário que surja. [...] É certo que tal história dificilmente poderá chegar até nós se não for por meio das palavras. Mas no sentido lógico do termo, isso é acidental”.4 O fato mais importante dessa citação é que podemos acreditar que, quando uma história é boa, não importa muito a forma como a contamos, porque seu conteúdo é o maior fator de atração dos ouvintes.
 

Oportunidades

O fato é que existe certo consenso entre os estudiosos de que os consumidores de produtos culturais religiosos (programas de TV, livros e outros) são, na maioria, fiéis das igrejas que os produzem ou religiosos de outras denominações. Dessa maneira, o que acaba ocorrendo é o trânsito interno de pessoas de uma igreja cristã para outra. O desafio é alcançar os adeptos de outras correntes religiosas, bem como os seculares, agnósticos e ateus. Por isso, é preciso se pensar novas formas e abordagens, objetivando falar para as pessoas que não possuem interesse inicial na mensagem cristã.
 
No cristianismo, há espaço para o natural e o sobrenatural, para o comum e o miraculoso, para o secular e para o espiritual. E porque não, para a literatura real e para a ficcional? Numa época em que a literatura – mesmo a relacionada à espiritualidade e ao sobrenatural – tem se popularizado tanto, podemos utilizar a criatividade dada por Deus para tornar atrativa a mensagem bíblica. Ao investir em produtos culturais – músicas, filmes, livros e outros – que falam sobre as verdades cristãs, é preciso fazê-los de modo intelectual e artisticamente tão perfeitos que os que não são cristãos sejam impressionados por sua integridade e beleza. Todos que entrarem em contato com esse material deveriam ter uma impressão forte do caráter de Deus e de Seus caminhos para a humanidade.
 

Notas

1 Sobre a maneira como os adventistas têm considerado as obras de ficção ao longo da história, veja Gary Land, Historical Dicionary of the Seventh-day Adventists (Lanham, MD: Scarecrow, 2005), p. 171-175.
2Guide to the Teaching of Literature in Seventh-day Adventist Schools, Departamento de Educação da sede mundial da Igreja Adventista
3 Scott E. Moncrieff, “Adventistas e ficção: outra consideração”, Diálogo Universitário, ano 8, n. 3 (1996), p. 11.
4 C. S. Lewis, A Experiência de Ler (Porto: Elemento Sudoeste, 2003), p. 60, 61.
 

Guia de leitura

Scott E. Moncrieff sintetizou alguns princípios para o uso da literatura nas escolas adventistas que, por tabela, servem como parâmetro para qualquer cristão: 
(1) Ser arte séria, que leve a uma compreensão significativa da natureza humana em sociedade e que seja compatível com os princípios adventistas;
(2) Evitar o sensacionalismo (exploração do sexo e violência) e sentimentalismo (exploração de sentimentos superficiais em detrimento de uma visão sadia e equilibrada da vida);
(3) Não ser caracterizada por desrespeito a Deus ou linguagem vulgar e ofensiva; 
(4) Evitar elementos que dão a impressão de que o mal seja desejável ou banal;
(5) Evitar histórias supérfluas, suspenses estimulantes ou dominados pelo enredo que encoraja leitura apressada e superficial;
Fonte: Guide to the Teaching of Literature in Seventh-day Adventist Schools, Departamento de Educação da sede mundial da Igreja Adventista. 
 

De olho no futuro

Apesar de os adventistas não investirem muito em ficção nos seus produtos culturais, as obras do gênero que se destacam, costumam tratar do fim do mundo. Abaixo, um resumo de dois livros e dois filmes que marcaram época:
 
O Fim do Começo: Através da história de um pequeno grupo de pessoas, é narrado o destino da humanidade, até que venha o fim (ou seja, a volta de Jesus). A história se desenvolve quando os participantes principais se deparam com a iminência do decreto dominical e parece que a perseguição aos que se mantêm firmes aos ideias bíblicos será cada vez mais violenta. A pergunta que a história tenta responder é: teria você (e os personagens) coragem de ir tão longe por aquilo que você acredita?
 
Projeto Sunlight: foi o primeiro livro de ficção a fazer grande sucesso no meio adventista brasileiro. O anjo Jader relata em seu livro celestial a história de Sunlight, uma não cristã que começa a estudar a Bíblia com uma ex-pentecostal, e juntas descobrem as verdades bíblicas. À medida que a trama se desdobra, ocorrem os últimos eventos da história da Terra. O livro reflete muito bem o contexto adventista do fim da década de 1970, com a preocupação de sintetizar as doutrinas adventistas. E isso de maneira atraente e conectada ao enredo. 
 
A Última Batalha: foi o primeiro longa-metragem (filme) adventista feito no Brasil. Ele se baseia no conceito de que todos os seres humanos precisam escolher um lado, dentro da guerra entre o bem o mal. Essa luta é ilustrada através da história do jovem Lucas (Ivy Goulart), que decide não acreditar mais no que a Bíblia ensina, passando a viver da maneira como acredita ser melhor. Uma das grandes contribuições de A Última Batalha foi o uso do recurso filme para a pregação da mensagem adventista.
 
A Vitória Final: Até onde se sabe, esse foi o primeiro filme adventista lançado na América do Sul. Produzido por uma igreja da Argentina, a produção também acompanha um grupo de pessoas que vive os últimos dias na Terra, antes da volta de Jesus. Muitos textos bíblicos são utilizados pelo narrador da história, para tentar explicar os acontecimentos que são mostrados. Embora o foco principal não seja o decreto dominical, ele aparece como importante na trama.
 
Artigo publicado na Conexão JA de abril-junho de 2011. 
Autor: Matheus Cardoso - Publicado em: 08/01/2014 - Fonte: