O amor em tempos de wi-fi

Aplicativos de celular se transformam efetivamente em uma extensão da vida real e já são a ferramenta mais moderna para flertar
Carlos Seribelli

A cigana que promete trazer um novo amor em três dias está atrasada. Na era das mídias sociais e da internet móvel, a cara-metade pode estar à velocidade de um toque no visor do celular. Essa é a promessa dos aplicativos de relacionamento, um atalho para paquerar quem estiver mais próximo, desde que com gostos e interesses parecidos.

De todos os cupidos de bolso, o Tinder é um dos mais populares hoje em dia. Lançado em 2012 nos Estados Unidos, o aplicativo ganhou a versão nacional em setembro do ano passado e, na sequência, a adesão em massa dos brazucas: atingiu um milhão de usuários em dois meses e tem expansão média de 20 mil novos perfis por dia.
Conectado ao Facebook, ele apresenta o(a) candidato(a) com meia dúzia de fotos – o maior número de #selfies e #duckfaces por metro quadrado. Curtiu? Basta clicar no coraçãozinho verde. Não rola? Aperte o X vermelho sem dó e passe para o próximo. Se você e a pessoa do outro lado da tela se marcarem com o coração, o app anuncia a combinação - o match - e abre uma nova tela, com um chat privado para os pombinhos.

Com tanta gente dando mole, é quase impossível não encontrar o amor correspondido. Exemplo disso é o caso do catarinense Crystian Kühl, 19, que já emplacou um encontro na vida real graças ao aplicativo. “Descobri interesses de pessoas que já conhecia e nunca imaginei que pudéssemos ter conversas além de amizade. Isso massageou meu ego. Digamos que o Tinder foi minha fada-madrinha”, conta.

A paranaense Camila Higachi, 20, é outra que aderiu ao aplicativo da paquera. “Soube por meio de um amigo e fiquei interessada em saber como funcionava. Comecei a usar e achei muito bom, principalmente porque as chances de interação são apenas quando há interesse mútuo”, aprova. Ela também já teve seu momento love is in the air. “Conheci um carinha pelo Tinder e, dias depois, em uma festa, a gente se reconheceu. Deu tudo certo”, ri Camila.

Aspirações sociais

Não é de hoje que homens e mulheres exibem seus melhores ângulos para impressionar o sexo oposto. Hoje, contudo, é pelas redes sociais via celular que os jovens fazem amigos, paqueram, começam e terminam namoros.
“Para as gerações mais novas, que cresceram sob influência da tecnologia, o meio virtual tem o papel social paralelo ao de instituições como a família, a igreja e a escola. De certa forma, a perspectiva de conexão digital traz de volta o grande senso de comunidade que a modernidade roubou da gente”, analisa o psiquiatra Cristiano Nabuco, coordenador do programa de Dependência Tecnológica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e um dos organizadores do livro Vivendo esse mundo Digital (Artmed).

“Aplicativos como o Tinder são como o footing de antigamente, em que as moças vestiam sua melhor roupa e saíam para passear de braços dados com uma amiga, com o único objetivo de serem vistas pelos rapazes”, compara a psicanalista e sexóloga Sônia Eustáquia.

Porém, mais que uma representação virtual da realidade, a febre dos apps de relacionamento também retrata as aspirações da sociedade digital. A lógica continua a ser a necessidade humana de se relacionar. Agora, contudo, a eterna busca de pessoas próximas, parecidas conosco e que saciem nossas carências está ainda mais calcada em novos valores, como instantaneidade e comodidade.

“Normalmente, a gente fala que a tecnologia ‘causa’ alguma coisa. Pode ser, mas o principal é o que ela representa. Nesse caso, o Tinder mostra que as pessoas querem fazer tudo ‘protegidas’, atrás de uma tela, e de forma rápida, sem perder tempo com cantadas”, pondera Tales Tomaz, professor do curso de Comunicação Social do Unasp e mestre em Comunicação pela PUC-SP.

Como característica marcante do mundo contemporâneo, o individualismo também é sintoma latente desse fenômeno. “A partir dos anos 1970, toda revolução da tecnologia teve a individualização da sociedade como ponto de partida, cada vez mais intensificada. O que os aplicativos fazem é aproveitar essa característica e oferecer um produto bem adaptado a ela”, diz o psicólogo Alberto Domeniconi Nery, professor de Psicologia no Unasp e mestre em Psicologia pela USP.

O mito da imagem

Reduzidos a uma série de fotos 3x4 – com filtros e mais filtros, claro –, os românticos virtuais aprovam ou desaprovam o outro puramente pelo visual. Ok, a atração física inicial também é o que conta na seleção da vida real. Porém, na plataforma digital, o charme e a espontaneidade ficam em segundo plano e a valorização dos mitos da imagem e da estética chega ao seu ápice. Para todos os efeitos, o pretendente se reduz a um signo, limitado a ser fotogênico ou não.

“Achamos que os signos podem ser controlados mais facilmente do que uma pessoa em toda sua complexidade. Reduzir o outro a um signo tem sido o recurso da nossa geração para dominar o alcance do outro e evitar a invasão de pessoas indesejadas”, analisa Tomaz. É como disse o filósofo alemão Ludwig Feuerbach (1804-1872): “Nosso tempo, sem dúvida (...) prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser.” E olha que isso era lá no século 19!

Pessoa ou coisa?

Por mais paradoxal que pareça, os aplicativos podem, sim, dar início a relacionamentos além da tela do celular, já que propõem a conexão ao mundo real. Mas, em contrapartida, podem “coisificar” a relação. “A própria natureza do Tinder faz com que as pessoas tenham pouca oportunidade de conhecer o outro, de dar ou receber afeto. Embora ele seja um facilitador de encontros, também favorece a banalização do afeto, de forma que o usuário encare o outro como se fosse apenas uma figurinha na internet”, analisa a sexóloga Sônia Eustáquia.

Os próprios usuários reconhecem essa ideia de “coisificação”. É o caso de Crystian e Camila, citados no início desta reportagem. “Cada um sabe o uso que faz do aplicativo. Mas a escolha é muito superficial, pois você julga o outro apenas pelas fotos e gostos”, admite Camila Higachi. “O Tinder pode, sim, ser considerado uma grande vitrine em que as pessoas se colocam como produtos uns para os outros, conforme seus objetivos. Mas, por experiência própria, sei que é possível entrar em contato com gente legal”, contrapõe Crystian Kühl.

#hashtags polêmicas

Os usos do Tinder e similares já dão pano para muita discussão sobre a cibercultura. Mas não é só ele que faz a cabeça dos usuários de smartphones. No mainstream virtual, outro tipo de aplicativo de relacionamento causou muito disse-que-disse: o Lulu, que chegou ao Brasil em novembro e, depois de um processo na Justiça e muito bate-boca, ficou indisponível, a partir de janeiro, nas lojas virtuais.

A novidade, semelhante aos antigos questionários que passavam de mão em mão na escola, permite que as mulheres, e apenas elas, traçassem o perfil de amigos, namorados ou ficantes por meio de hashtags bastante polêmicas, tais como #FeioArrumadinho; #EsqueceaCarteira; #DaSono; #UsaRider; #MaisBaratoQueUmPaoNaChapa e a impagável #CurteRomeroBritto.

A repercussão dele foi ainda mais avassaladora que o Tinder. Em dois meses, o app registrou mais de 3 milhões de usuárias, como a paranaense Maria Fernanda Teixeira, 21, que admite adorar o Lulu. “Assim que instalei, ficava horas rindo das avaliações. Pra mim, é mais um passatempo, mas acho legal a proposta original da criadora, de ajudar as meninas a saber mais sobre certos garotos antes de investir no relacionamento”, diz ela.

Mas quando questionada se iria gostar do inverso – um aplicativo em que os garotos possam avaliar as meninas, como anunciou o app fakeTubby, que, na verdade, se revelou uma trolagem –, ela muda de lado. “Se fosse comigo, não iria gostar, não. Mas o que irritou no aplicativo contrário era o teor chulo das hashtags e não da avaliação em si”, revela.

Em geral, os homens também não curtiram muito o Lulu. Mesmo porque bastava ter perfil no Facebook para estar sujeito a ser avaliado e não poder fazer nada em relação a isso, até que uma ação do Ministério Público em dezembro motivou os diretores do site a mudar as regras e permitir que os homens escolham se querem ou não ser avaliados.

Cotado com a nota 8.6, o mineiro Augusto Louzada, 20, ficou sabendo da sua fama virtual por uma prima. “Tentei levar na brincadeira, mas havia características que não tinham nada a ver comigo. Uma das hashtags falava que eu fumava maconha, coisa que nunca fiz. Acho que ninguém tem o direito de julgar as pessoas sem conhecê-las e expor opiniões dessa forma”, diz. Ele também se diz contra um aplicativo para “revidar”. “Acho mais ridículo ainda”, opina.

Mais sintomas

Da mesma forma que o Tinder, o sucesso das hashtags do Lulu apontam para sintomas da sociedade, que também afetam os relacionamentos de forma geral. “Somos valorizados, hoje, em função do que podemos produzir e oferecer para os outros”, analisa o psicólogo Alberto Nery. Ele cita o conceito de “amor líquido”, concebido pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman, que se baseia em “relações frágeis, descartáveis, fragmentadas e urgentes. Enfim, todas as características reais representadas pelos aplicativos no campo virtual”.

O anonimato também favorece o aspecto pejorativo do app. “Isso cria um ambiente para que as pessoas expressem características obscuras da própria personalidade, não reveladas em outros contextos”, alerta o psicólogo.

Em tempo: toda essa análise sociológica não pretende demonizar a tecnologia, nem os apps de relacionamento. Afinal, eles permitem inúmeras possibilidades de uso. “A maneira de as pessoas utilizarem o Tinder, o Lulu e outros tem muito mais que ver com a estrutura e os traços de personalidade do que com o aplicativo em si mesmo. Não acredito que eles moldem ou direcionem seu comportamento, mas, isso sim, cria um ambiente propício à revelação do indivíduo”, diferencia Nery.

Vida real

A questão passa, ainda, pelo convívio social. Se é fato que muitos usam essas novas plataformas como ferramenta amplificadora da realidade, outros tantos acabam presos a ela, esquecendo-se que existe vida “lá fora”. Comparada à dependência química, a compulsão para o uso abusivo das novas utilidades do celular já entrou até para o rol de doenças da modernidade. A novidade vem da Inglaterra, atende pelo título de nomofobia (abreviação para no mobile phobia) e descreve a sensação de angústia diante da impossibilidade de se conectar às ferramentas disponíveis no aparelho.

Como o processo da comunicação virtual é irreversível, o ideal é buscar o equilíbrio. Casos extremos de compulsão digital já têm tratamentos específicos, como o desenvolvido no próprio Hospital das Clínicas. Com duração de 18 semanas, o objetivo é levar os “viciados” em tecnologia a perceber os motivos e emoções que os levam a agir dessa maneira e traçar novas alternativas, que extrapolem as inseguranças e inquietudes.
“É gostoso comer pizza ou ouvir música, mas ninguém faz isso o tempo todo. Com as conexões virtuais é a mesma coisa: devem ser administradas da mesma forma que você administra a vida, isto é, com limites”, conclui o psiquiatra Cristiano Nabuco.

O que eles pensam

Crystian Kühl, 19
“Por experiência própria, sei que é possível ter contato com gente legal pelo Tinder e, talvez, conforme a química que rolar, ter algo a mais. Mas desaprovo as justificativas de muitas de minhas amigas para usar o Lulu. Elas dizem que a mulher foi, por muito tempo, objeto mercadológico do homem, e que, agora, é hora de dar o troco. Mas buscar a igualdade, a meu ver, não é dar o troco. Quando os mesmos erros são cometidos, pode-se conseguir tudo, menos a igualdade.”

Maria Fernanda Teixeira, 21
“Acho que o Tinder é uma ferramenta muito eficiente para pessoas de gostos parecidos se encontrarem no mundo virtual. Nunca conheci ninguém pessoalmente, mas o aplicativo me ajudou a estreitar uma relação com alguém que só conhecia de vista. Depois que ‘casei’ com ele no Tinder, começamos a nos tratar como conhecidos na vida real.”

Camila Higachi, 20
“Acho o Tinder muito bom, principalmente porque a interação é possivel apenas quando há interesse mútuo. Acompanhei o Lulu apenas por uma semana. Achei engraçado, mas apenas uma brincadeira. Na verdade, ninguém pode ser avaliado por uma nota. Cada menina tem uma percepção diferente, é muito relativo.”

Augusto Louzada, 20
“A ideia do Lulu, a princípio, poderia até ser bacana, mas acho que ninguém tem o direito de sair julgando as pessoas sem conhecer e expor opiniões dessa forma. Tentei levar na brincadeira, só que não curti a exposição. Ainda bem que o aplicativo para os homens avaliarem as mulheres não foi pra frente: seria ainda mais ridículo.”

Tinder

1 milhão de perfis em dois meses
20 mil novos usuários ao dia

Lulu

3 milhões de usuárias
500 mil homens avaliados

Fonte: Tinder e Lulu (janeiro)

Autor: Fernando Torres - Publicado em: 03/04/2014 - Fonte: