O fundo do abismo

Desta vez, nosso repórter se aventurou na prática de rapel e flutuação no Abismo Anhumas, em Bonito
Divulgação
Em um dia ensolarado do verão de 1976, um peão encontrou, meio por acaso, um buraco encoberto pela vegetação nas terras de uma fazenda no Mato Grosso do Sul. Mas não era um buraco qualquer. A enorme fenda na terra se abria para um majestoso salão subterrâneo, desembocando em um lago verde-esmeralda, de águas transparentes.
 
Mais de 30 anos depois, cá estou eu prestes a descer por esse mesmo buraco, o Abismo Anhumas, em Bonito, a 330 km de Campo Grande. E para vencer seus 72 m de profundidade – o equivalente a um prédio de 24 andares –, o único jeito vai ser encarar um rapel “básico”. É mais uma reportagem para a revista Conexão!
 
A aventura começa já na noite anterior, no treinamento obrigatório para ver quem realmente agüenta o tranco. A prova consiste em subir e descer por uma torre de 8 m de altura. Primeiro, aprendo a desenvolver a técnica de subida: erguer os joelhos flexionados e, ao mesmo tempo, empurrar o croll blocante corda acima, encerrando o movimento com as pernas esticadas. Parece mais difícil do que realmente é; o segredo está na força das pernas. Para descer, basta apertar o descensor stop e controlar o freio para não ir rápido demais, com muito cuidado para não encostar o rosto no aparelho e na corda.
 
No outro dia... acordo às 5h30 da manhã (que maravilha!). O rapel está marcado para as 7h, mas, além do banho e do café da manhã reforçado, há uma estrada de terra de 23 km a ser transposta a partir das redondezas de Bonito.
 
Chego à boca do buraco pontualmente. Além de mim, mais quatro pessoas, um casal de Goiás e outro do Paraná, irão descer o Anhumas naquele horário (a visitação é supercontrolada; apenas 16 pessoas por dia). Como eu era o único solitário, todos os olhares se voltam para mim. Ok, ok, eu vou primeiro!
 
Nesse momento, percebo que existem dois buracos: o maior deles é o que permite a entrada da luz solar, enquanto o menor, de mais ou menos 1 m de largura e 2 de comprimento, é onde está montada a estrutura de rapel. O Éder, o guia, me prende aos equipamentos e se prepara para descer comigo. Já suspenso no ar, dou uma última espiada lá embaixo. E lá vamos nós... Bye!
 

Dentro da caverna

Os primeiros 10 m são uma espécie de funil bem claustrofóbico feito de paredes de rocha. Ainda bem que estou de capacete! Mas, depois, a fenda vai se alargando, alargando, alargando... A adrenalina salta na veia, menos pelo rapel em si e mais pela beleza única do lugar, observada de um ponto privilegiado. A sensação de estar suspenso sobre o lago, literalmente no centro da terra, é fascinante, e a postura é de reverência diante da imponência das rochas.
 
A descida demora pouco tempo, entre cinco a sete minutos. Lá embaixo, em um deck flutuante, outro guia, o Rui, nos espera. Rapidamente, ele me desconecta dos equipamentos e me deixa livre para explorar a caverna na extensão do deck, enquanto os outros aventureiros descem.
 
Impactados com a visão sobrenatural, logo somos apresentados a alguns morcegos. Muito simpáticos, eles nos recepcionam com guano (vulgo cocô). Não são uma gracinha?!
 
A melhor maneira de explorar as formações rochosas do Anhumas é usando um bote. Os tripulantes rapidamente se organizam. O Rui rema calmamente e vai nos mostrando o interior da caverna, que tem cerca de 500 m² de extensão, a proporção média de um campo de futebol.
 
O bote percorre galerias fantásticas, que deixam no chinelo qualquer escultura humana. Entre as formações rochosas surgidas a partir de goteiras de água (espeleotemas), há desde as estalactites (que descem do teto) e estalagmites (que “crescem” do piso) clássicas a outras mais elaboradas, interpretadas de acordo com a imaginação do visitante. A mais famosa delas é o Guardião, um adorável velhinho que toma conta da caverna.

Tudo fica ainda mais bonito quando a luz do sol, passando pela boca da caverna, ilumina o lago. Ah, em tempo! A cor da água não é verde-esmeralda, mas sim uma ilusão de ótica. O motivo? A combinação entre a luz solar e a água rica em calcário e magnésio, dois componentes sempre presentes nos rios de Bonito.
 

Os espeleotemas à beira do lago impressionam, mas o que mais me chama a atenção são as formações pontiagudas que saltam da água. A princípio, penso que são estalagmites, mas o Rui logo me corrige. “São cones submersos, de formação calcária”, informa ele, adiantando que vamos poder observá-los melhor no momento mais esperado da aventura: a flutuação.
 

Viagem a Atlantis

Assim que acaba o giro pela caverna, voltamos para o deck e nos preparamos para a flutuação, um mergulho livre e superficial. Rapidamente, equipo-me com máscara, snorkel (tubo de respiração) e roupa de neoespreme, digo, neoprene de 5 mm (uma roupa de borracha isolante e muuuuito apertada que protege o corpo e impede que ele afunde). Quem tiver certificado de mergulhador autônomo pode se aventurar com o mergulho de cilindro. Infelizmente, não é o meu caso...
 
O guia da flutuação é um cara chamado Aladdin. Ele não realiza três desejos, mas nos leva para conhecer um mundo ainda mais mágico. Ao colocar a máscara e o snorkel e afundar a cabeça na água – temperatura de 18º, gelada no último! –, toda a percepção se transforma. A impressão é de estar planando sob arranha-céus. Cerca de 20 cones gigantes (o mais alto tem 19 m de altura, dimensão única no mundo) assemelham-se a uma cidade submersa e me remetem à lenda da Atlantis perdida. Mais uma vez, minha postura é de reverência.
 
Cada um de nós está munido de lanterna. Em alguns pontos, ela é totalmente desnecessária e até atrapalha, pois a luz do sol garante a iluminação. Porém, ela nos ajuda a explorar algumas galerias, enxergar a grandiosidade dos cones e levar um susto com o esqueleto de um pobre tamanduá que caiu no abismo e por ali ficou.
 
O lago tem um volume de água de aproximadamente 24 m³ e em alguns pontos a profundidade chega a 80 m. Ao flutuar nesse trecho específico, um arrepio percorre meu corpo: mesmo com a lanterna ligada, é impossível enxergar o fundo – aquilo, sim, é um verdadeiro abismo. Não consigo deixar de pensar que, se eu cair ali, já era... E, como eu não quero que meus ossos se tornem uma atração turística como os do tamanduá, rapidinho volto para o ponto mais raso – como ponto raso, leia-se 18m, ok?
 
Ficamos cerca de 40 minutos nessa exploração subaquática e, depois, voltamos para o deck. Pensa que acabou? Agora que o bicho pega. O único jeito de sair do abismo é da mesma forma como entramos: rapel. Só que agora não são apenas 8 m de subida. O paredão todo me aguarda.
 
Antes de me animar a subir, faço um lanche reforçado para repor as energias: pão integral, banana, barra de cereais, uma bebida energética e o sempre bem-vindo chocolate meio-amargo. Mas até que a subida não é tão complicada. As paradas ajudam e reforçam a sensação de que o Anhumas é realmente um lugar único.
 
Depois de 20 minutos e umas dezenas de “esticadas”, alcanço a boca do buraco e sou “resgatado” pelos monitores. O fundo do abismo ficou lá embaixo. Taí: missão cumprida, reportagem escrita. A Conexão já pode dizer que desceu o Abismo Anhumas. Eu, por minha vez, trouxe comigo uma das experiências mais apaixonantes – e, por que não dizer, profundas – da minha vida.
 

Origem

Anhumas é também o nome de um pássaro preto, com penas brancas na barriga e na cabeça. Conforme a cultura local, esse pássaro era muito comum na região no tempo em que o Anhumas foi descoberto, dando origem ao nome.
 
 

Serviço

Aberto para visitação desde 1996, o Abismo Anhumas tem um preço salgado: R$ 360, incluindo todo o equipamento de rapel e flutuação. Quem não se contentar e quiser o mergulho autônomo (com cilindro) paga R$ 510.
 
 
Croll Blocante – Aparelho fixo à corda, ligado ao mosquetão e à cadeirinha, permite a subida do praticante de rapel ao ser empurrado para cima.
 
Descensor Stop – Aparelho fixo à corda, tem uma alavanca de segurança que, ao ser acionada, faz a corda deslizar suavemente.
 
Autor: Fernando Torres - Publicado em: 10/01/2014 - Fonte: