Um destino chamado missão

Não é turismo nem mero intercâmbio cultural. Dedicar um ano para a missão em seu ou em outro país, é uma decisão espiritual de sacrifício e recompensa. Conheça quem tem escolhido e
Thiago Lobo

Imagine viver em um país que fala outro idioma e cuja cultura é diferente da sua. A isso, acrescente o desafio de conversar com estranhos, falar sobre Deus a pessoas que não têm tempo, abraçar mendigos, ajudar famílias carentes e viver com pouco ou nenhum dinheiro.

Mais que uma aventura, o trabalho de um missionário envolve uma série de desafios: é preciso lidar com a saudade de casa, conviver em harmonia com pessoas e costumes diferentes e encarar os conflitos espirituais mais intensos que ocorrem no campo missionário.

Jovens que aceitam esse tipo de missão estão dispostos a abrir mão do conforto a fim de ajudar o semelhante e transformar a realidade de muitas pessoas. "Fui missionária no Malaui, no sudeste da África. Lá, as pessoas vivem em uma situação de pobreza extrema e o acesso aos serviços básicos de saúde é muito escasso", diz a médica Melina Lannes, 28, que estudou na Universidade Adventista del Plata (UAP), na Argentina, e fez parte de suas atividades práticas como profissional da saúde no país africano.

No curso de Medicina da UAP, os alunos têm que cumprir 16 meses de práticas profissionais: oito em hospitais de alta complexidade, e o restante em atividades comunitárias voltadas à saúde básica. "Nesse período, os futuros médicos têm a chance de cumprir os requisitos do curso fora do país. E muitos aproveitam a oportunidade para atuar como missionários", explica o Dr. Milton Mesa, diretor da Faculdade de Ciências da Saúde da UAP.

A experiência de servir como voluntária no Malaui mudou a vida de Melina, que conheceu a realidade de um dos 20 países mais pobres do mundo e teve que driblar a falta de recursos para atender a população local. "Há poucos médicos e especialistas naquele país. Vi muitos jovens da minha idade que tinham AIDS morrerem por falta de recursos e tratamento", lembra a carioca, que hoje atua como profissional do programa Mais Médicos, em Suzano, na região metropolitana de São Paulo.

Assim como a UAP, outras universidades adventistas ao redor do mundo aliam formação acadêmica com prática missionária. No Brasil, por exemplo, os três campi do Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp) também contam com atividades voltadas à missão, as quais são realizadas por meio dos chamados institutos missionários.

Missão urbana

Evangelizar mendigos, dar aulas de inglês a imigrantes e ajudar as vítimas do furacão Sandy foram algumas das atividades que a artista plástica e educadora Liz Motta desempenhou em Nova York, em 2013. Ela foi uma das 13 missionárias do projeto One Year in Mission (Um Ano em Missão), uma iniciativa da Igreja Adventista em nível mundial que visa a encorajar jovens a dedicar um ano à pregação do evangelho. A ideia dessa versão-piloto, realizada nos Estados Unidos, é que os participantes voltem para seus países e liderem projetos semelhantes na sua região.

Ela deixou um emprego rentável em Brasília, onde atuava como professora de inglês, para se juntar a voluntários de outros países que também dedicaram um ano à missão. "Eu tinha uma vida bem estável, até que surgiu essa oportunidade. Adiantei meu trabalho de conclusão de curso na universidade e desisti de três propostas de mestrado para me dedicar ao projeto. E Deus abriu as portas para mim", diz.

Mas o que motiva jovens como Melina, Liz e tantos outros? "A missão não é o que você vai ganhar, mas o legado que você deixará quando partir", diz a jovem missionária, que em 2014 vai estar à frente de uma equipe de 15 voluntários do projeto One Year in Mission, em Montevidéu, Uruguai.

Liz tem o perfil dos missionários da nova onda evangelística mundial: jovens articulados, bem-sucedidos profissionalmente, que dominam um segundo ou terceiro idioma e desejam fazer a diferença em outra cultura. "O grupo que foi para Nova York era muito diversificado. Havia profissionais das áreas de biologia, psicologia, recursos humanos, além de um empresário e um administrador com MBA em negócios", conta Liz.

Para alcançar as pessoas em grandes metrópoles, é preciso adotar estratégias diferenciadas. "Nova York, por exemplo, é uma cidade multicultural. Numa mesma comunidade você encontra gays, lésbicas, judeus, negros e brancos. E como você poderá alcançar pessoas tão diferentes? Resposta: isso é impossível! O evangelismo deve ocorrer pela amizade. Você deve ser um centro de influência na sua comunidade", destaca a missionária.

E é aí que as habilidades e a formação de cada voluntário fazem toda a diferença. Nesse sentido, vale de tudo. Clube de pets, aulas de inglês, escola de culinária, entre outras iniciativas, podem ser o pontapé inicial para estabelecer vínculos com a população local. "Um dos projetos mais bem-sucedidos que realizamos foram aulas de inglês para imigrantes. Também conduzimos uma semana de evangelismo para mendigos", conta Liz Motta.
Mas para colocar a mão na massa não é preciso sair do país ou morar em regiões remotas do planeta. Quem nunca teve uma experiência missionária, pode começar pela cidade em que vive ou em um estado mais longe.

Missão em casa

O estudante Marcos Vinícius Eloi Silva sempre teve vontade de dedicar um período de sua vida ao trabalho missionário. E foi através do convite de um pastor que ele conheceu o projeto Missão Total.

A iniciativa é voltada a jovens de 18 a 35 anos que têm ou estão buscando uma formação acadêmica. A ideia, que nasceu no coração do pastor Nelson Milanelli, então líder dos jovens adventistas da região Centro-Oeste do Brasil, existe há três anos e já "formou" mais de 70 missionários.

Assim como Silva, outros estudantes, de nível médio e superior, são enviados para uma cidade ou região diferente da sua, na qual desenvolvem atividades comunitárias e evangelísticas.

O preparo para a atividade missionária envolve dois meses de treinamento em um colégio interno. Lá, eles estudam materiais específicos, realizam atividades físicas regulares e desempenham tarefas manuais e em meio à natureza. "Isso tudo faz com que eles tenham mais autonomia. Alguns participantes, por exemplo, vão ajudar na cozinha do colégio, porque quando estiverem no campo missionário, terão condições de fazer a própria comida", explica o pastor Nelson Milanelli.

Estágio em igrejas da região, grupos de estudos, entre outras atividades, complementam a formação básica desses missionários, que após dois meses de curso estão aptos para encarar as ruas. Eles são divididos em grupos de seis pessoas e, em alguns casos, chegam a conviver com um missionário estrangeiro. "Já trouxemos gente da Austrália, da Inglaterra e até do México. O legal disso tudo é que cada um usa seu talento para ajudar a comunidade e falar de Deus a outras pessoas", diz Milanelli, hoje pastor da Igreja do campus da Faculdade Adventista da Bahia, em Cachoeira.

Ações simples, mas que mudam a vida de quem precisa. "Lembro que fui ajudar um senhor de mais de 60 anos a capinar um lote e, quando ele viu o resultado do trabalho, quase não acreditou no que eu havia feito por ele. Seus olhos se encheram de lágrima. Ele tinha problemas na coluna e ficou surpreso ao saber que fiz aquilo sem esperar nada em troca", diz Silva, que após trabalhar como voluntário em Araguaína, TO, decidiu ser missionário em tempo integral. "Quero ser um pastor e dedicar minha vida a Deus", revela.

Aventura da vida real

Para o pastor Berndt Wolter, Deus tem despertado uma nova geração, que não se conforma com o status quo e busca uma experiência genuína com Deus. "Trata-se de um movimento missiológico. Esses jovens estão querendo sair da rotina, da zona de conforto e gostam de aventuras. Atrás das telas virtuais, não há esse tipo de experiência. E ser missionário não é uma ficção, é uma aventura da vida real", analisa.

Segundo explica Wolter, especialista em missões e doutor em ministério pela Andrews University (EUA), o fenômeno da globalização faz com que os brasileiros se sintam convidados a conhecer outras culturas. "Essa vontade de ser missionário sempre existiu, mas faltavam oportunidades. Hoje, nós temos um núcleo de missões e uma série de outras atividades missionárias que antes não existiam. Além disso, o Brasil está vivendo um bom momento. Já não é tão difícil juntar os recursos para ser um missionário em outro país", ressalta.

O núcleo de missões do Unasp, campus Engenheiro Coelho, que é dirigido por Wolter, já enviou cerca de 600 missionários a outros países, boa parte deles para regiões em que o cristianismo é inexpressivo. "O brasileiro é recebido de braços abertos e com sorrisos. E o país tem a vantagem de ir à frente com essa imagem do futebol e da descontração", explica.

É claro que sempre se deve ter o cuidado de entender e respeitar a cultura local. Nesse sentido, o preparo é fundamental para garantir a segurança e o sucesso do voluntário em terras estrangeiras. Por isso, a missão transcultural não pode ser encarada como turismo ou mero intercâmbio cultural.

Novo fluxo

"A necessidade de missionários, tanto em casa quanto fora do país, nunca foi tão grande. Temos começado a promover as missões urbanas como a nova fronteira do trabalho missionário. Mesmo fazendo evangelismo nas metrópoles por um bom tempo, e muita coisa tem sido feita, há mais de 500 cidades no mundo com mais de um milhão de pessoas. Esse é um excelente desafio quando você percebe que 126 delas estão na chamada janela 10/40", resume o Dr. Rick McEdward, do Centro de Missão Global da sede mundial da Igreja Adventista.

McEdward ainda lembra que a única motivação nobre para a missão é compartilhar a experiência genuína que o missionário tem tido com Cristo. “Algumas pessoas têm uma imagem tão distorcida de Deus, que apenas o contato com um cristão autêntico poderá tocá-las”, acredita o teólogo.

É por essa razão que McEdward enxerga grande potencial missionário em países como Brasil, México, Coreia do Sul, Filipinas e Nigéria. Lugares em que o cristianismo está vivo e se despertando para sua contribuição mundial. Na visão do teólogo, o novo fluxo missionário não é dos Estados Unidos e Europa para o mundo, mas “de todos os lugares para todos os lugares”.

Quando perguntado quais são os destinos top para os missionários, McEdward desafia: “A verdadeira questão é se estamos à procura de uma experiência feliz e segura, ou dispostos a ir como Paulo fez, mesmo que isso signifique potencial martírio?” Para quem busca segurança, ele recomenda países como a Tailândia, Coreia do Sul e Japão, mas para os que têm forte convicção de que foram vocacionados para uma missão mais ousada, a escolha pode ficar entre Arábia Saudita, Iêmen, Afeganistão e Coreia do Norte. E você, qual é seu destino?

Para saber +

numci.org
voluntariosadventistas.org
oneyearinmission.org

Autor: Leonardo Siqueira - Publicado em: 05/01/2014 - Fonte: