Vizinhos do Pantanal

Não é preciso enfrentar onça e jacaré para se divertir no Mato Grosso. Acompanhe as dicas de roteiros de aventura pertinhos de Cuiabá
Fernando Torres
Quem disse que o único roteiro turístico do Mato Grosso é o Pantanal? Em viagem a trabalho para Cuiabá, a capital mato-grossense, decidi explorar por minha própria conta, risco e money algumas das outras atrações das redondezas em um raio de distância inferior a 150 km. Dessa vez, como companheiros de aventura, contei com dois amigos da empresa onde trabalho, o Wellington e o Daniel, que também curtiram a ideia de dar uma “esticadinha”.
 

Nobres 

Como primeiro destino, escolhemos o vilarejo de Nobres, a 140 quilômetros a noroeste de Cuiabá, metade deles em estrada de terra. Depois de sacolejar por duas horas e meia numa van, finalmente chegamos a uma pousada às margens do Rio Salobra, na Vila Bom Jardim. A flutuação – também chamada de snorkeling – é uma atividade praticamente exclusiva daquelas bandas: no Brasil, além de Nobres, esse mergulho superficial só pode ser feito em Bonito, MS. O que faz os rios dali tão extraordinários? A combinação de calcário e magnésio, minerais que garantem águas 100% cristalinas. Não é por acaso que a região é chamada de Reino Encantado da Lagoa Azul.
 
Rapidamente, nos equipamos com máscara de mergulho, snorkel (tubo de respiração) e coletes salva-vidas e caminhamos até a nascente. Dali, é possível ver alguns legítimos exemplares da fauna do cerrado, a exemplo do macaco-prego e da cutia. Mas é entrando no leito do rio que a diversão realmente começa. Ao mergulhar, a sensação é de estar em um mundo à parte. A ressurgência do lençol freático provoca borbulhas na água, um espetáculo visual à parte. Peixes como pintado, dourado, tucunaré, lambari e pacu nos cercam e dão as boas-vindas, assumindo que, por alguns minutos, também fazemos parte do habitat fluvial. Agora, era só relaxar e seguir a leve correnteza, flutuando, flutuando, flutuando...
 
À tarde, nosso programa em Nobres incluiu visita à Gruta da Lagoa Azul – não confunda com a Gruta do Lago Azul, em Bonito. A incursão à caverna é feita por uma trilha bem mais fácil de 1.500 metros, passando por estalactites e estalagmites de rochas calcárias. O lago, que já pode ser visto na metade do percurso, exibe um tom de azul intenso. Mas é apenas ilusão de ótica. O efeito blue se deve, novamente, aos minerais calcário e magnésio e à própria luz solar. Porém, essa informação não diminui em nada o impacto e a sensação de reverência que a gruta proporciona.
 
No dia seguinte, de volta à Cuiabá, acordamos bem cedo. Dessa vez, o destino era a Chapada dos Guimarães, a 64 quilômetros ao leste. A diversão já começa no caminho. No meio da BR-251, está o Córrego da Salgadeira, onde os antigos bandeirantes paravam para temperar a carne. Hoje, é uma espécie de balneário de cachoeiras, ótimo para se refrescar do intenso calor do Mato Grosso – aliás, bota calor nisso! Pouco adiante, o mirante Portão do Inferno tem uma vista incrível das esculturas rochosas da Chapada, que levam o nome de Cidade de Pedra. Sem falar nas araras, que constroem seus ninhos nas pedras do penhasco.
 
Tudo isso é muito bonito, mas o que mais me chamou a atenção foi o Mirante do Centro Geodésico. Explico: a Chapada dos Guimarães está encravada no centro do continente sul-americano, entre os oceanos Atlântico e Pacífico. E o mirante à beira do precipício é a marca ideal para se sentir bem no meio da América. Lá de cima, a impressão que se tem é de que o mar de montanhas e planícies nunca acaba. Ao mesmo tempo em que vi tudo “do alto”, senti que sou minúsculo. A sensação é de paz, muita paz. Quer melhor lugar para se perder nos próprios pensamentos?
 
Enfim, chegamos ao Parque Nacional da Chapada dos Guimarães. A cerca de 500 metros da portaria, está a principal atração: a cachoeira Véu de Noiva, de 86 metros de altura. Infelizmente, fomos avisados de que, devido a um acidente em abril de 2008, a trilha até o poço está temporariamente vetada. Mas há o prêmio de consolação. O Circuito das Cachoeiras, ainda dentro do parque, oferece uma sequência de sete quedas-d’água.
 
Anote aí: as melhores são a primeira, a Cachoeira do Pulo; a quinta, a Cachoeira da Prainha (cercada de areia branca); e a sétima, a Cachoeira das Andorinhas (com 18 metros de altura). O percurso completo de ida e volta é de 6 km, mas a caminhada não oferece grandes desafios. Com um pouco mais de fôlego, estendemos as andanças até a Casa de Pedra, gruta de arenito com inscrições rupestres formada pela ação do Rio Sete de Setembro. Dizem que, nos anos 1920, a caverna abrigou os guerrilheiros da Coluna Prestes.
 
O ponto mais alto do parque é o Morro de São Jerônimo, a 800 metros de altitude. Para chegar lá, é preciso ter ânimo. Com cerca de 20 quilômetros (ida e volta), a caminhada completa leva entre cinco a seis horas. Sem falar na escalada, propriamente dita. O trajeto inclui transposição de rio e vizualização de esculturas de pedras bem características da Chapada, como o Chapéu, o Cogumelo, a Tartaruga, o Jacaré e o Altar. Porém, tudo isso ficou apenas na vontade. O trekking até o Morro de São Jerônimo está provisoriamente suspenso, para fins de manutenção. Pena! Demos azar.
 
No último dia de viagem, a rota foi Jaciara, 150 quilômetros a sudeste de Cuiabá. Espécie de balneário, a pequena cidade concentra águas termais, rios e cachoeiras. Mas, a aventura de hoje é o rafting no Rio Tenente Amaral. À primeira vista, enfrentar altas corredeiras parece emoção demais para quem é urbano até o último fio de cabelo. Bobagem! O rafting não é exatamente um passeio light, mas também não chega a ser tão radical. São 2.500 metros de descida em três botes infláveis, sendo que cada um abriga sete pessoas e o guia. Nesse trajeto, há corredeiras do nível 1 ao 4. Portanto, esqueça a possibilidade de sair seco de lá, principalmente porque os instrutores estimulam que os barcos entrem em “guerrinha” de água entre si. Dá pra imaginar a cena, né?!
 
A trip aquática começa na Cachoeira da Fumaça, mas é na queda-d’água Salto do Bambu, que o coração quase sai pela boca. O lance é que a gente não pode parar de remar. Tá pensando que é brincandeira? Três mil duzentas e trinta e sete remadas depois, chegamos ao Balneário Cachoeira da Fumaça, um espaço para camping, que conta com cachoeiras, aves nativas e piscinas. 
 
Problema à vista: não dava para curtir muito tempo esse paraíso, pois já era hora de pegar a estrada de volta para Cuiabá e, então, o voo de volta para casa. Mas, sem dúvida, valeu a pena. Para uma “esticadinha” básica, a gente aproveitou até o limite.
 

Praia no cerrado

Embora esteja bem longe do mar, a galera de Cuiabá costuma pegar praia aos fins de semana. A prainha artificial do Lago do Manso, a 86 quilômetros da capital, é formada pela água da usina hidrelétrica local e pertence à cidade de Chapada dos Guimarães. Com vista para o Morro do Chapéu, é possível praticar vários esportes náuticos, como caiaque, esqui e windsurf.
 

Dica do repórter

Na Chapada dos Guimarães, almoce no restaurante panorâmico Morro dos Ventos. O lugar fica em uma espécie de condomínio afastado da cidade e o mirante proporciona uma vista particular dos paredões de pedra.
 

How much?

Esqueça a ideia de se aventurar pelas bandas do Mato Grosso sem um guia credenciado. Reservas antecipadas são imprescindíveis, mas vale a pena ligar para várias agências e pechinchar bastante. Confira a média dos gastos de cada passeio por pessoa:
 

Nobres

Flutuação + Gruta do Lago + traslado (Cuiabá – Nobres – Cuiabá) + almoço = 200 reais (inclui equipamento de mergulho)
 

Chapada dos Guimarães

- Córrego da Salgadeira + Portão do Inferno + Mirante do Centro Geodésico + Parque Nacional da Chapada dos Guimarães (Véu da Noiva + Circuito das Cachoeiras) + traslado (Cuiabá – Chapada – Cuiabá) = 100 reais. As atrações fora do Parque Nacional não são pagas e não precisam de guia, mas, para quem é de fora, o pacote completo vale a pena.
- Caminhada Morro São Jerônimo + traslado (Cuiabá – Chapada – Cuiabá) = 150 reais.
Almoço no restaurante Morro dos Ventos = 70 reais por prato (serve três pessoas). 
 

Jaciara

Rafting no Rio Tenente Amaral + traslado (Cuiabá – Jaciara – Cuiabá) + almoço = 120 reais.
 
* Preços referentes ao transporte com veículo da agência e/ou do guia. Dependendo do número de pessoas, pode ser mais vantajoso alugar um carro.
 
Reportagem publicada na Conexão JA de janeiro-março de 2011.
Autor: Fernando Torres - Publicado em: 08/01/2014 - Fonte: